quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Vargas, o PTB, Eduardo Gomes, Hugo Borghi e os ‘marmiteiros’: O que tudo isso tem a ver com a eleição presidencial de 2010?- por Marcos Doniseti!


Vargas, o PTB, Eduardo Gomes, Hugo Borghi e os ‘marmiteiros’: O que tudo isso tem a ver com a eleição presidencial de 2010? - por Marcos Doniseti

(publicado originalmente no blog Guerrilheiro do Entardecer no dia 20/11/2009)

Atualmente, estou lendo o livro ‘O Imaginário Trabalhista’, de Jorge Ferreira, que analisa a história política do PTB, mas sob o ponto de vista dos seus seguidores, militantes e eleitores, que eram, quase todos, trabalhadores assalariados urbanos.

O livro é excelente e recomento a sua leitura, pois o mesmo mostra, de forma nítida, que aquela história de que o PTB era o ‘partido dos pelegos’ é totalmente falsa e mentirosa, não passando de uma grotesca manipulação a fim de se apagar da história e da memória brasileiras a luta dos trabalhadores da época pela ampliação dos seus direitos (políticos e sociais), bem como pela construção de uma Nação mais desenvolvida, democrática, soberana, justa e igualitária.

O PTB foi criado em 1945 e pelo próprio Presidente Getúlio Vargas (que tinha um profundo desprezo pelos partidos políticos) para que o mesmo desse sequência às suas realizações, particulamente no campo social e trabalhista, no qual tivemos, entre outras iniciativas, a criação da jornada de 8 horas diárias, a criação da Previdência Social e do salário mínimo, das férias e folgas remuneradas, da licença-maternidade, da restrição ao trabalho infantil, da legalização dos sindicatos de trabalhadores, do direito de greve, entre muitas outras conquistas que as classes trabalhadoras conseguiram obter junto ao governo Vargas.

Sim, tudo isso foi conquistado pelos trabalhadores. Ninguém lhes deu nada. O mérito do governo Vargas foi em reconhecer a justiça destas reivindicações e em transformá-las em Lei, ou seja, em direitos.

Embora isso tenha vindo acompanhado, por parte do governo Vargas, de uma repressão mais intensa (mas que já era promovida pelos governos da época da ‘República Velha’) ao movimento sindical (o que gerou muitos conflitos, entre 1930 e 1935, entre o governo e os trabalhadores, que resistiam a esta política de ‘tutela e controle’ que Vargas tentava impor ao movimento operário) o fato é que os trabalhadores brasileiros foram, de fato, muito beneficiados pela legislação social e trabalhista criada pelo governo Vargas.

E foi justamente em função disso que Vargas tornou-se verdadeiramente admirado e respeitado pelos trabalhadores, que viam em sua liderança política a encarnação dos seus direitos. Para os trabalhadores da época o fato de Vargas governar o país era a garantia de que os seus direitos seriam preservados e que não teríamos um retrocesso que levasse à eliminação dos mesmos, o que era pregado abertamente pela UDN. Este, era um partido conservador e direitista que era uma espécie de ‘PSDB’ daquela época e que era apoiado fortemente pelo grande empresariado, pela Grande Imprensa e pelas classes médias urbanas mais abastadas.

Assim, qualquer semelhança com o atual PSDB não é mera coincidência. Não foi à toa, portanto que, há poucos anos, FHC elogiou Carlos Lacerda (o Eterno Golpista da Direita tupiniquim) e, em seu mais recente artigo (o já famoso texto, devidamente criticado e rebatido por mim aqui no blog, e cujo título é 'Para Onde Vamos?'), acusou Lula de querer implantar uma 'República Sindicalista' no país, acusação esta que também foi intensamente feita e repetida pelos udenistas e pela Direita brasileira, no período 1945-1964, contra Vargas e Jango, principalmente.


Mas, com o fim do ‘Estado Novo’ e a convocação de eleições gerais em 1945, se configurou uma situação que assustou as classes trabalhadoras. O problema é que o candidato favorito para vencer a eleição presidencial daquele ano era, justamente, o candidato da conservadora UDN (União Democrática Nacional).

A UDN de democrática tinha muito pouco, pois o partido vivia pedindo que os militares interferrissem no processo político a fim de derrubar os governos de Vargas, JK e de Jango, organizando vários Golpes de Estado entre 1945-1964, até que em Março/Abril de 1964 o Golpe de Estado udenista foi vitorioso, infelizmente, e deu início a um período ditatorial de 21 anos, marcado fortemente pela repressão indiscriminada a todo e qualquer movimento social organizado e a movimentos e partidos políticos mais progressistas (PTB, PCB, Ligas Camponesas, movimento sindical e estudantil, entre outros).

E os líderes udenistas atacavam, duramente e o tempo inteiro, toda a legislação social e trabalhista brasileira da época. Isso levou o pânico às classes trabalhadoras, que passou a exigir que Vargas se candidatasse à Presidência da República. Foi neste contexto que surgiu o ‘Queremismo’, um amplo movimento político e popular que exigia que Vargas continuasse na Presidência da República e que, para isso, pudesse participar da eleição presidencial que se realizaria (mas este é assunto para uma outra mensagem).

Porém, as forças políticas mais conservadoras do país, aliadas às Forças Armadas e lideradas pela UDN e pela Grande Imprensa, se uniram e em 29/10/1945 derrubaram Vargas da Presidência, mesmo depois deste ter se recusado a lançar a sua candidatura presidencial.

Com isso, a eleição presidencial de 1945 foi disputada entre 3 candidatos: o Brigadeiro Eduardo Gomes (UDN), o General Eurico G. Dutra (do PSD, outro partido de origem varguista e que reunia os seus seguidores mais conservadores e com forte penetração em todo o país, principalmente nas áreas mais pobres e atrasadas... O PSD era uma espécie de ‘PMDB’ da época) e Yedo Fiúza, do PCB (Partido Comunista do Brasil).

Após ser derrubado da Presidência da República, Vargas se retirou para a sua fazenda em São Borja e ficou em profundo silêncio político, recusando-se a interferir na campanha presidencial em favor de qualquer candidato.

Mas, a campanha se desenrolou de forma que ameaçava toda a obra política e social construída por Vargas entre 1930-1945, pois o udenista Eduardo Gomes era o favorito para vencer a eleição. E os udenistas não perdoavam Vargas, atacando-o duramente, inclusive ameaçando até em expulsá-lo do país caso fossem os vitoriosos das eleições.

Foi nestas circunstâncias que um dos principais líderes e criadores do PTB, Hugo Borghi, ficou sabendo que o brigadeiro Eduardo Gomes havia dito num comício que não precisava do voto da ‘malta’ para se eleger Presidente da República. E um dos significados da palavra ‘malta’, Borghi descobriu, era justamente ‘marmiteiro’.

Daí, Borghi, astutamente, fez um discurso em uma cadeia de rádio, que teve um grande impacto, dizendo que Eduardo Gomes não gostava dos marmiteiros, dos que trabalham e dos que lutam.

Isso gerou uma maciça campanha popular em que centenas de milhares de trabalhadores saíram às ruas de todo o país atacando Eduardo Gomes e defendendo a sua honra e a sua dignidade como trabalhadores. A marmita, com isso, se transformou num poderoso símbolo político, conferindo uma identidade comum a milhões de trabalhadores assalariados de todo o Brasil.

Em São Paulo, na época, chegou a ocorrer uma gigantesca manifestação popular (com a presença de 500 mil pessoas) em que os trabalhadores levaram panelas e marmitas e, na qual, protestavam contra o preconceito e a discriminação com que foram tratados pelo candidato da UDN.

Desta maneira, Eduardo Gomes ficou com a desagradável imagem de ser um candidato preconceituoso e elitista, que não gostava dos trabalhadores e que seria contra os direitos destes. A imagem, a julgar por todos os ataques que a UDN fazia contra Vargas e contra a legislação trabalhista e todo o preconceito que as elites udenistas demonstravam possuir em relação aos trabalhadores (que eram chamados pela Grande Imprensa conservadora de 'bêbados, arruaceiros' e outras denominações bem pouco lisonjeiras), era mais do que justificada, aliás.

Na reta final da campanha, Borghi também conseguiu convencer Vargas a apoiar a candidatura presidencial de Dutra, o que ele se recusava a fazer até aquele momento, pois considerava Dutra um traidor, pois o general foi um dos principais líderes do Golpe de Estado que havia derrubado Vargas da Presidência da República no final de Outubro daquele mesmo ano.

Mas, os argumentos de Borghi (de que a vitória do Brigadeiro ameaçaria a manutenção da legislação social e trabalhista criada na Era Varguista) e os duríssimos ataques desferidos pela UDN contra Vargas, levaram o líder trabalhista a dizer aos trabalhadores que votassem em Dutra.

Este, cuja candidatura, até aquele momento, não empolgara ninguém e que não tinha carisma ou empatia alguma com os trabalhadores, acabou vitorioso, obtendo 55% dos votos, contra 35% do candidato udenista.

O general Dutra era tão desligado e distante do mundo dos trabalhadores que, numa certa ocasião, quando foi convidado para discursar para os mesmos num sindicato, ele ficou o tempo inteiro falando sobre a grandeza das Forças Armadas brasileiras, sobre as realizações do Duque de Caxias e do Marechal Deodoro e não pronunciou uma vez sequer a palavra ‘trabalhadores’.

Foi este candidato que Vargas conseguiu eleger Presidente em 03/12/1945...

Logo, o apoio declarado de Vargas acabou fazendo toda a diferença e garantiu a vitória de Dutra na eleição presidencial daquele ano.

Portanto, e ao contrário do que se diz por aí, um governante (ou ex-governante, como era o caso de Vargas em Dezembro de 1945) extremamente popular consegue, sim, transferir popularidade para um candidato ou candidata que ele venha a apoiar e, com isso, mudar o resultado final da disputa.

Este mais um motivo para que eu venha a acreditar na possibilidade de vitória de Dilma Rousseff na eleição presidencial de 2010. E tenho várias razões para acreditar nesta vitória.

Vamos à elas:

1) O Presidente Lula é, tal como Vargas, extremamente popular, e tem um índice de aprovação pessoal de 81%, um recorde na história recente do país;

2) O governo Lula também é responsável por uma sensível melhoria das condições de vida dos trabalhadores e dos mais pobres, tal como Vargas também foi;

3) Os setores populares não irão querer ver tais conquistas e melhorias ameaçadas por uma eventual candidatura de oposição conservadora (seja ela qual for) e que sempre atacou o governo Lula, bem como aos seus principais programas sociais. Exemplo: basta ver que o então PFL, atual DEM, entrou com uma ação no STF para acabar com o ProUni e que os tucanos e democratas sempre chamaram o Bolsa-Família de 'esmola, bolsa-cachaça e bolsa-vagabundo';

4) As críticas e ataques aos programas sociais e às políticas do governo Lula que beneficiaram aos mais pobres e aos trabalhadores (outros exemplos: Brasil Sorridente, Farmácia Popular, Pronaf, aumentos reais para o salário mínimo, Luz Para Todos, etc) irão fazer com que o povo brasileiro eleja Dilma, a fim de que esta dê continuidade a tais programas.

Assim, votar em Dilma, em 2010, terá o mesmo simbolismo que votar em Dutra em 1945.

Ambos os atos representam o desejo de continuidade das obras e programas de dois governantes extremamente populares, Vargas e Lula, e que passaram a ser, por isso, muito admirados e respeitados pelos mais pobres e pelos trabalhadores em geral em suas respectivas épocas.

5) O Presidente Lula participará intensamente da campanha eleitoral, visando eleger Dilma, tal como o ex-Presidente Vargas também deu um apoio decisivo para que Dutra fosse eleito Presidente em 1945.

É Dilma Presidente 2010!

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