sábado, 20 de agosto de 2011

Nassif, o Golpe de 1964 e a análise de Fernando Trindade!

Nassif, o Golpe de 1964 e a análise de Fernando Trindade! 

(Texto originalmente publicado no blog no dia 27/12/2009)


Nassif, o Golpe de 1964 e a análise de Fernando Trindade!

1) Nassif, finalmente! Até que enfim você escreve sobre tema que pelo menos desde a cobertura das eleições de 2006 pela grande mídia ficou muito claro para muitos: a evidente linha de continuidade entre a ideologia elitista e antipopular da grande mída de hoje e a do passado, que foi fundamental para os golpes contra Getúlio em 1954, contra JK (quando o contragolpe liderado por Lott barrou o golpismo udenista) e contra Jango. Isso o que está por traz da forma achincalhada com que tratam a Lula como bem disse Fábio Barreto, outro dia – espero que se recupere do grave acidente que sofreu.

2) Na verdade, para mim você até demorou em tratar desse assunto que - acredito – o levou a deixar a Folha. Pela sua coragem e posicionamento você tem toda a minha admiração e respeito.

3) Mas lamento muito que até você se refira a Getúlio e a Jango de forma depreciativa, o que para mim é inaceitável e concilia com a indignidade golpista, pois quando se prioriza as debilidades dos respectivos Governos em comparação com o golpismo da ‘elite branca’, o que se está fazendo, por via transversa, é condescender com os golpistas, quando, sabemos muito bem, a via golpista não teve início com a renúncia de Jânio, e sim marcou a direita elitista durante todo o período da Constituição de 1946, só sendo estancada em 1954 pelo gesto extremo de Vargas, a quem você parece responsabilizar – ‘sozinho’, a expressão é sua – pelo Golpe que sofreu então.

E dizer que o problema com Jango era o seu ‘populismo’, pela’amor de Deus! Enfim, o começo do seu texto é politicamente inaceitável, embora o seguimento o redima.

4) É preciso rever com urgência o conceito apenas negativo que a sociologia uspiana tem de populismo (onde parece que você se inspirou).

Essa sociologia uspiana elitista desancou o populismo culpando-o por todos os males do País e acusando-o até – pasmem! – se de ser o grande responsável pelo golpe, livrando a cara da direita oligárquica, dos Lacerda, Mesquita, Marinho e caterva.

E onde estão, hoje, politicamente, dois dos principais expoentes dessa sociologia uspiana, os Srs. FHC e Weffort?

Ernesto Laclau, que tem dado imensa contribuição para que possamos entender o processo político do Mundo de hoje, escreveu mais ou menos recentemente um livro – La razón populista – em que – pela resenha que li – demonstra exatamente que não podemos ter preconceitos com o que o termo populismo representa. Seria bom ver esse livro publicado no Brasil.

Enfim, para mim, popular e populista podem ter uma ou outra contradição, mas não têm nenhum antagonismo, como querem a direita que quer dividir a esquerda e certa esquerda de base elitista.

O grande erro da esquerda no pré-64 foi exatamente não ter entendido a importância de isolar a direita oligárquica (inclusive os seus setores modernosos como os bacharéis da UDN) e deixar romper a aliança com o centro fisiológico, representado especialmente, então, pelo pessedismo.

Lula, de forma genial,como que intuiu isso (na verdade, trata-se da experiência acumulada da luta popular) e buscou – acertadamente – um acordo de convivência com o centro fisiológico de hoje (representado especialmente pelo PMDB).

A direita oligárquica sabe que a aliança esquerda/centro é o maior obstáculo ao seu retorno ao Governo, essa a razão por trás dos ataques ao Congresso, que é hegemonizado pelo centro fisiológico.

5) Outra coisa, o fisiologismo pode ser corrupto ou não.

Fisiológico quer dizer oposto de ideológico.

E enquanto o nosso País tiver uma maioria de excluídos, um amplo mercado de produtos e serviços (e de trabalho!) informal e precário, uma desigualdade social imensa como a historicamente reproduzida, haverá um importante centro fisiológico na política.

É alienação pretender que quem luta pela sobrevivência no dia a dia seja ideológico.

A esquerda errou muitas vezes ao não entender que os fisiológicos não são o seu adversário central.

O adversário central da esquerda é a minoria elitista, “a elite branca” de que falou Lembo, reacionária e excludente, herdeira política do modo de produção escravista, tão bem retratada por Joaquim Nabuco, já em 1883!

6) Para terminar, em matéria de análise do PIG insuperável segue sendo o mestre Wanderley Guilherme, conforme dois trechos de entrevista de 2007:


“Destes episódios que o senhor listou qual o senhor acha que é o mais emblemático?

Eu acho que dois episódios. Primeiro, a tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubitschek. Por quê? Porque Juscelino não era intérprete ou representante de uma classe ascendente. Ele pertencia à elite política. Era um homem do PSD – Partido Social Democrata. Juscelino era um modernizador. Portanto, a tentativa de impedir a sua posse mostra o radicalismo e a intolerância das classes conservadoras brasileiras. Quer dizer, naquele momento, não aceitava nem mesmo um dos seus membros, porque era um modernizador. Este episódio é bem emblemático. Não houve nada de dramático, de trágico ou suicídio, mas é um exemplo de até onde pode chegar a intolerância do conservadorismo brasileiro. É impressionante. Esse foi pra mim um episódio que define muito bem até onde o conservadorismo é capaz de violar os escrúpulos democráticos.

E o segundo?

É agora com Lula, porque a posse de Lula realmente revela uma nova etapa histórica no país. E revela o quanto o conservadorismo se dispõe a comprometer o futuro do país, pelo fato de o governo estar sendo exercido pelo intérprete de uma nova composição social. Isto é, há um grupo parlamentar e há grupos privados – e neles se inclui a imprensa – dificultando a implementação de políticas que são reconhecidamente benéficas ao país, porque estão sendo formuladas e implementadas por um governo intérprete das classes populares. Isso é impressionante. Quer dizer, no fundo, aquilo que os conservadores dizem que as forças populares – segundo eles, para a esquerda, quanto pior melhor –, na prática, quem pratica o quanto pior melhor são os conservadores.”

Link:

http://guerrilheirodoentardecer.blogspot.com/2009/12/nassif-o-golpe-de-1964-e-analise-de.html

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