sábado, 17 de setembro de 2011

Jarbas Passarinho e as razões fajutas para tentar justificar o Golpe de 1964 – por Marcos Doniseti!

Jarbas Passarinho e as razões fajutas para tentar justificar o Golpe de 1964 – por Marcos Doniseti!


Na semana passada assisti, na TV Brasil, a reprise de um programa (o 3 A 1), que é apresentado pelo jornalista Luiz Carlos Azedo. Um dos quadros reprisados promoveu um debate rápido sobre o Golpe de 64 e a Ditadura Militar.

Os convidados do programa eram Marco Antonio Tavares Coelho, ex-integrante do velho Partidão, o PCB, o filho de Vladimir Herzog, Ivo Herzog, e o ex-ministro da Justiça (na época do AI-5) do regime ditatorial, o coronel Jarbas Passarinho.

O programa começou com o jornalista questionando Passarinho a respeito das razões pela qual os militares promoveram a derrubada do presidente legítimo e constitucional do Brasil e que era João Goulart, o Jango.

Resumidamente, Passarinho apresentou 3 razões que, a seu ver, justificavam o Golpe de Estado contra Jango e que são as seguintes:

'O Golpe Preventivo' - Jango e as Esquerdas teriam um plano para dar um Golpe de Estado e implantar uma ditadura no país;

'Quebra da disciplina e da hierarquia dentro das Forças Armadas' – As revoltas de sargentos e marinheiros estavam destruindo, segundo Passarinho, com a disciplina e a hierarquia dentro das Forças Armadas e tais revoltas eram estimuladas pelas Esquerdas. 

'Guerra Fria' – Segundo Passarinho, a Guerra Fria entre os EUA e a URSS gerou reflexos aqui no Brasil, onde teria se reproduzido o conflito entre forças de Direita e de Esquerda, tal como acontecia no cenário internacional entre os soviéticos e os estadunidenses.

Agora, vou procurar comentar e analisar estes três motivos apontados, por Jarbas Passarinho, como razões para que acontecesse o Golpe de Estado contra o presidente legítimo e constitucional do Brasil, que era João Goulart. 

Com relação ao primeiro item, Passarinho justificou-se dizendo que Leonel Brizola defendia o fechamento do Congresso Nacional com o objetivo de implantar uma Ditadura. Isso é verdade. E tal posição era, também, defendida por setores das Esquerdas mais radicais do período.  

Mas, este posicionamento não era unânime entre as lideranças e as forças esquerdistas e nacionalistas do período, não. João Goulart, por exemplo, jamais defendeu tal posição. 

Ele até fazia críticas à atuação do Congresso Nacional (o que é perfeitamente normal e democrático... Não há nada de golpista nisso), mas daí a defender o fechamento do Congresso Nacional vai uma longa distância. 

Tanto isso é verdade que, mesmo depois de ter se aliado às forças Nacionalistas Radicais (aliança esta que foi formalizada no comício da Central do Brasil de 13/03/1964) Jango recusou-se a adotar esta ideia de fechar o Congresso Nacional e adotou uma estratégia distinta, que foi a de organizar grandes manifestações populares pelo Brasil inteiro a fim de pressionar o Congresso para que este aprovasse as Reformas de Base. 

Assim, o comício da Central do Brasil era para ser o primeiro de uma série de grandes manifestações populares mas, em função do Golpe de Estado de 01/04/1964, elas não foram realizadas, é claro. 

Novamente, pode-se dizer que não há nada de errado, ilegal ou de golpista nisso. 

Pressões populares pacíficas e organizadas para que os parlamentares (nas três esferas: federal, estadual e municipal) tomem certas decisões são perfeitamente normais e legítimas em qualquer regime democrático-representativo. Não há nada de golpista nisso. 

Passarinho chegou, inclusive, a citar o livro 'Combate nas Trevas', de Jacob Gorender, no qual este diz que Jango tinha intenções continuístas, ou seja, de tentar mudar a Constituição para poder se reeleger.

Já li o livro de Gorender e o fato concreto é que ele não prova, de maneira nenhuma, e em parte alguma da sua obra, que Jango tinha planos continuístas. Gorender não apresenta nenhum documento que prove a sua tese. 

O ex-líder do PCB e do PCBR limita-se a citar uma declaração de Luiz Carlos Prestes a respeito do assunto e mais nada, o que é muito pouco para provar qualquer coisa. Declaração oral ou escrita de Jango que prove as intenções continuístas do então presidente, Gorender não apresenta em nenhuma parte do seu livro. 

E no livro 'João Goulart – Uma Biografia', o historiador Jorge Ferreira também diz a mesma coisa. Ele afirma, claramente, que não há nada de concreto que confirme as intenções continuístas ou golpistas de Jango.  

E como Jango era o presidente da República, qualquer tentativa de fechar o Congresso Nacional e implantar uma ditadura esquerdista no país seria inviável sem a sua participação. 

Somente Jango, na condição de presidente da República e de comandante-em-chefe das Forças Armadas, teria condições de comandar um golpe. E como Jango não tinha intenção nem de fechar o Congresso Nacional e nem de se reeleger, é totalmente equivocado usar este argumento para justificar o Golpe de 64, como faz Jarbas Passarinho.

Já com relação à quebra da disciplina e da hierarquia nas Forças Armadas, é verdade, sim, que as Esquerdas radicais estimulavam e apoiavam as revoltas de marinheiros e de sargentos dentro das mesmas.

Aliás, esse foi, a meu ver, o erro mais grave cometido pelas Esquerdas nacionalistas e reformistas do período, pois isso jogou quase toda a oficialidade das Forças Armadas contra elas. 

Mesmo aqueles oficiais que defendiam e legalidade e o respeito à Constituição (na biografia sobre Jango, Jorge Ferreira diz que 90% da oficialidade era legalista), voltaram-se contra Jango, Brizola e contra as Esquerdas Radicais quando perceberam que eles não apenas toleravam mas, principalmente no caso dos grupos nacionalistas mais radicais e de Brizola, estimulavam tais revoltas. 

Jango ainda tentava negociar e conter tais revoltas, mas não conseguiu, pois sua autoridade como Presidente da República praticamente se esfarelou nas últimas semanas do seu governo. 

Exemplo disso foi que Jango mandou o ministro da Marinha, Paulo Márcio Rodrigues (indicado ministro pelo CGT), demitir e prender o Almirante Aragão e também prender os marinheiros rebelados, mas o ministro não cumpriu com as suas determinações. E mesmo assim, Paulo Márcio continuou ministro, como se nada tivesse acontecido. 

Quando se chega a esse ponto, é porque o presidente não manda mais nada. 

Logo, a fala de Passarinho não está errada, não. 


  1. Mas, ele se esquece de algo muito importante, que é o fato de que quem começou com essa história de quebrar a disciplina e a hierarquia dentro das Forças Armadas foram os grupos direitistas mais conservadores. 
     
    Exemplo perfeito disso foi o chamado 'Manifesto dos Coronéis', de 1953, que foi assinado pelos militares ligados às forças mais conservadoras e que atacou o presidente da República, Getúlio Vargas, e o então ministro do Trabalho, João Goulart, pelo fato de estarem defendendo o reajuste de 100% para o salário mínimo. 
    Tal crise acabou desembocando, inclusive, numa tentativa de Golpe de Estado, em Agosto de 1954, que foi abortada e derrotada, apenas, porque Vargas cometeu suicídio e mandou divulgar a Carta-Testamento. 
     
    E também não se pode esquecer das outras tentativas de Golpe de Estado feitas pelas forças direitistas, como em Novembro de 1955, quando tentaram levar adiante um Golpe que tinha como objetivo inviabilizar a posse dos recém-eleitos JK e Jango na presidência e na vice-presidência da República, respectivamente. 
     
    Aliás, tal tentativa de Golpe de Estado das Direitas começou com um ato de insubordinação e de indisciplina por parte de um membro do movimento golpista, que foi o Coronel Jurandir B. Mamede. Este, fez um discurso violento (no dia 31/10/1955) no qual atacou a vitória de JK e de Jango para o governo do país e disse que eles não podiam assumir o comando da Nação porque não tinham sido eleitos com a maioria absoluta dos votos. 
     
    É bom lembrar que a Constituição brasileira da época não exigia a maioria absoluta para coisa alguma... Bastava obter uma maioria simples para considerar-se como legítima a vitória de qualquer candidato à presidência da República. E também não existia, é bom lembrar, nem segundo turno. 

    E uma outra peculiaridade do período era o fato de que se podia votar em um candidato à presidente de uma chapa e no vice de outra chapa. Em 1955, JK e Jango, da mesma, foram eleitos. Mas, em 1960, isso não se repetiu, pois Jango era o vice do Marechal Lott, e foi eleito para o cargo derrotando o vice de Jânio Quadros, que era Milton Campos, da UDN.

    Logo, o coronel Mamede defendia, abertamente, um Golpe de Estado que impedisse a posse de JK e de Jango.

    O ministro da Guerra (equivalente, hoje, ao cargo de Ministro do Exército), o honrado e íntegro Marechal Lott (e grande defensor da Legalidade Constitucional), exigiu que Mamede fosse punido, mas o então presidente Café Filho (que estava comprometido inteiramente com os planos dos golpistas) negou-se a fazê-lo, provocando a demissão de Lott. 
     
    Assim, abriu-se o caminho para o Golpe de Estado, que foi barrado graças à mobilização dos generais legalistas do Exército, a qual Lott acabou aderindo, decidindo comandar o contra-golpe preventivo a fim de garantir a posse dos recém-eleitos JK e Jango no governo do país. 
     
    Portanto, configurou-se, em Novembro de 1955, mais uma situação em que as Direitas golpistas tupiniquins praticaram uma nítida e clara quebra da hierarquia dentro das Forças Armadas a fim de se promover um Golpe de Estado que resultaria na implantação de uma Ditadura Militar. 

    Um contra-golpe preventivo comandado pelo Marechal Lott garantiu a posse de JK e de Jango em 1956. 
      
    Foi a reação de generais legalistas e que sentiam que o Marechal Lott havia sido ludibriado e humilhado pelo presidente Café Filho (pois este havia se recusado a punir o Coronel Mamede) que desencadeou o contra-golpe que garantiu a posse de JK e Jango no final de Janeiro de 1956. Portanto, neste caso, a quebra da hierarquia e da disciplina militares foi obra das Direitas golpistas e, em função disso, o Golpe das mesmas foi derrotado. 
     
    E as tentativas golpistas das Direitas retrógradas não cessaram e, mesmo depois da posse, JK-Jango enfrentaram mais duas tentativas de Golpe de Estado organizadas pelas forças Conservadoras, que aconteceram em 1956 e em 1959. Estas foram as revoltas militares de Jacareacanga e de Aragarças, respectivamente.
    As duas revoltas aconteceram com o apoio de forças direitistas, principalmente do eterno golpista Carlos Lacerda, com o objetivo de derrubar o governo legítimo e constitucional do Brasil, que era o de JK-Jango. 
     
    Assim, mais uma vez, foram as Direitas golpistas que levaram adiante novas tentativas de se quebrar a disciplina e a hierarquia dentro das Forças Armadas e acabaram derrotadas. 
     
    E em 1961, as mesmas forças conservadoras e direitistas que haviam fracassado em suas tentativas golpistas de 1954, 1955, 1956 e 1959, tentaram um novo Golpe de Estado, a fim de impedir a posse de João Goulart na presidência da República após a tentativa de Golpe travestida de renúncia por parte do então presidente Jânio Quadros. 
     
    E os golpistas da Direita reacionária novamente fracassaram, devido à fantástica 'Campanha da Legalidade', liderada pelo então governador gaúcho Leonel Brizola, que derrotou a tentativa golpista e garantiu a posse de Jango na presidência da República. 
     
    Assim, antes mesmo de 1964 e das revoltas de sargentos e marinheiros tumultuarem as Forças Armadas, já existia uma longa e interminável tradição de quebra da disciplina e da hierarquia dentro das mesmas por parte das forças mais direitistas da sociedade brasileira da época. 

    Foram estas forças que inauguraram, por assim dizer, estes movimentos de quebra da hierarquia e da disciplina militares, bem como da Legalidade Constitucional. 
     
    Em sua biografia sobre João Goulart, Jorge Ferreira mostra que foi somente após a vitória do contra-golpe preventivo de Novembro de 1955, que foi liderado por generais legalistas do Exército e pelo então ministro da Guerra, o Marechal Lott, que as Esquerdas começaram a desenvolver atividades políticas dentro das Forças Armadas com o objetivo de formar um 'dispositivo militar' que sustentasse a legalidade democrática no país. 

    Antes disso, isso não acontecia. 

      
    Desta maneira, as Esquerdas começaram a falar, na época, da existência na de um 'soldado cidadão', ou seja, de um Exército comprometido com a defesa da Constituição e da Democracia, que garantiria a estabilidade política do país e que se oporia ao 'Exército anti-popular, golpista e retrógrado' e que era ligado às forças mais direitistas do país e que vivia promovendo Golpes de Estado 'a torto e a direito'. 

    Mas, quando isso começou a acontecer, as Direitas Conservadoras já tinham uma longa tradição de tentar quebrar a hierarquia e a disciplina dentro das Forças Armadas, fazendo isso muito antes que qualquer esquerdista. 
     
    Logo, foram as forças direitistas que mantiveram e fortaleceram, entre 1945 e 1964, a tradição golpista dentro das Forças Armadas, algo que remetia à Proclamação da República e que passava pelas rebeliões tenentistas e pela Coluna Prestes na década de 1920. 
     
    E Passarinho parece se esquecer, como já afirmei aqui, que o presidente da República é, também, o comandante-em-chefe das Forças Armadas. 
     
    Logo, qualquer tentativa golpista de derrubá-lo representa, inegavelmente, uma quebra da disciplina e da hierarquia dentro das Forças Armadas. 

    E não se pode esquecer que todas as tentativas de Golpe de Estado (vitoriosas ou não) entre 1945 e 1964 foram organizadas e levadas adiante pelas forças direitistas e conservadoras.

    Portanto, ninguém contribuiu mais, entre 1945-1964, para quebrar com a disciplina e a hierarquia dentro das Forças Armadas do que as ações golpistas das Direitas Conservadoras, que foram as mesmas forças políticas-sociais que organizaram e apoiaram o Golpe de Estado que derrubou Jango da presidência da República. 
     
    Assim, quando as Esquerdas começaram a agir no mesmo sentido, as Direitas já tinham acumulado uma vasta experiência em promover a quebra da autoridade dentro das Forças Armadas. Não havia nenhuma novidade nisso. Portanto, atribuir às Esquerdas, como faz Passarinho, a responsabilidade pela quebra da hierarquia e da disciplina nas Forças Armadas é um absurdo total. 
     
    Finalmente, a questão da Guerra Fria que, segundo Passarinho, impactava a realidade brasileira e influenciava fortemente o alcance e a intensidade dos conflitos políticos e sociais que aconteciam no Brasil neste período. 
     
    Mas, esta questão não pode ser considerada como sendo importante para desencadear o Golpe de 64 e por várias razões, como:


    A) As quatro principais lideranças populares do Brasil, nesta época, no campo dos grupos Nacionalistas, eram Jango, Brizola, Arraes e Prestes. Dos quatro, apenas este último era, é claro, comunista. Os outros três eram líderes nacionalistas e reformistas, mas não eram comunistas. Nunca foram.
     
    B) Dentro dos principais movimentos sociais e populares do período (CGT, UNE, Ligas Camponesas, intelectuais), a hegemonia não era do PCB, mas do PTB. Este partido é que detinha, por exemplo, o controle da maioria dos sindicatos de trabalhadores e não o PCB. 

    Os comunistas, por isso mesmo, abandonaram aquela política de oposição radical à Vargas e à influência do PTB sobre os operários (política esta que durou até 1954, mas que foi abandonada após o suicídio de Vargas), decidindo atuar de maneira conjunta com os petebistas. 
     
    E o PTB não era, e nunca foi,comunista. 

    Seu programa e suas principais propostas tinham um nítido caráter Social-Democrata, de Centro-Esquerda, defendendo a adoção de um Capitalismo nacionalista e com significativa intervenção do Estado na economia e na área social. 
     
    Estas eram ideias e políticas também adotadas por países da Europa Ocidental, EUA, Canadá, enfim, por todo o mundo desenvolvido da época. 
     
    A não ser que alguém considere que tais países eram Comunistas, não se pode atribuir ao PTB janguista da época uma natureza revolucionária e tampouco comunista. Somente notórios desinformados podem acreditar numa bobagem monumental dessas. 
     
    Na verdade, a principal influência ideológica sobre o PTB do período 1945-1964, principalmente depois que Jango se tornou o presidente nacional do partido, em 1953, era o Trabalhismo britânico, que de comunista não tinha absolutamente nada. 

    As ideias da Igreja em defesa da justiça social também exerceram influência no PTB janguista. 
     
    Logo, de comunista o PTB não tinha coisa alguma. Ele era um típico partido de Centro-Esquerda, Social-Democrata, Nacionalista e Reformista. Comunista, jamais.

    E como o PTB foi o partido político que mais cresceu nesta época, tendo aumentado consideravelmente a sua bancada no Congresso Nacional nas eleições de 1962, tendo deixado a UDN (que os críticos diziam que significava 'Unidos Destruiremos a Nação') muito para trás em número de deputados federais eleitos (o PSD elegeu 116 deputados federais, contra 112 do PTB) não se pode dizer que o crescente número de trabalhadores e tampouco os líderes e integrantes dos movimentos sociais que votavam no PTB fossem comunistas. 
     
    Entre os comunistas, com certeza, o voto no PTB era maciço, mas isso acontecia em função da ilegalidade do Partidão e também porque, entre os partidos legalizados da época, o PTB era o único que aceitava fazer alianças políticas, mesmo que informais, com o PCB. 

    Logo, de comunista, o PTB não tinha absolutamente nada. 

    C) O próprio PCB, naquele momento, dizia que a prioridade não era a de promover uma Revolução Socialista no Brasil, mas uma Revolução Nacional-Libertadora que deveria ser levada adiante através de uma aliança com a Burguesia Nacional progressista. 
     
    Tal aliança foi feita justamente porque o PCB percebeu que não dava para atuar dentro dos movimentos sociais da época falando mal de Vargas, das leis trabalhistas e do PTB. Quando tentaram fazer isso, eles chegaram a ser apedrejados pelos trabalhadores (como Jorge Ferreira conta em seu livro 'O Imaginário Trabalhista).

    Assim, mesmo que o PCB não tivesse, naquela época, abandonado a intenção de fazer do Brasil um país Socialista, não era essa a orientação que predominava no Partidão naquele momento. 
     
    D) As principais propostas de mudanças e de transformações da sociedade brasileira defendidas pelo PTB e pelas Esquerdas Nacionalistas neste período não tinham um caráter Socialista. 
     
    Elas possuíam, sim, características fortemente Nacionalistas e Estatistas. 

    Defendia-se, por exemplo:
    A) A reforma agrária, que foi feita em todos os países capitalistas desenvolvidos e que, logo, não pode ser tachada de comunista, até porque ela amplia o número de proprietários particulares na área rural. E a propriedade privada dos meios de produção não é uma das características fundamentais do Capitalismo?;

    B) A erradicação do analfabetismo, o que é fundamental para qualquer país que deseja se desenvolver, seja Capitalista, Socialista ou o 'ista' que for; 


    C) Maior intervenção do Estado na economia, algo perfeitamente normal nesta época, pois era exatamente isso o que acontecia no mundo inteiro, incluindo os EUA e a Europa Ocidental, onde predominava o Welfare State ou Estado de Bem-Estar Social. 

    Nestes países, os setores mais importantes da economia eram controlados por empresas estatais e o discurso neoliberal não encontrava apoio suficiente na população. Isso somente foi acontecer na década de 1980, depois que Reagan e Thatcher passaram a governar os EUA e o Reino Unido, respectivamente. 
    D) A extensão do direito de voto aos analfabetos, com o objetivo de ampliar a participação popular no processo político, o que fortalece a Democracia em vez de enfraquecê-la. Afinal, a Democracia não é o sistema onde predomina a vontade da maioria da população? Sem participação popular real, efetiva, a Democracia não existe. 
     
    E) A extensão dos direitos sociais, trabalhistas e previdenciários para os trabalhadores rurais, o que era fundamental para se levar justiça social e democracia à area rural brasileira, onde as relações de trabalho capitalistas já eram hegemônicas e estavam plenamente estabelecidas e há muito tempo.
    Essas propostas não tinham nada de Socialistas ou Comunistas. Isso é uma asneira monumental. 
     
    Na verdade, elas constituíam um amplo programa de reformas políticas, sociais e econômicas que visavam conciliar o sistema capitalista brasileiro com um elevado grau de justiça social e com a manutenção da Democracia, melhorando-se a distribuição de renda e as condições de vida dos mais pobres e dos trabalhadores. 

    Jango nunca se cansou de dizer isso, mas parece que muitos dos seus inimigos não perceberam, embora alguns mais esclarecidos entre os direitistas da época soubessem disso, sim. 

    Ao lado de sua bela esposa, Maria Thereza, Jango discursa para cerca de 300 mil pessoas no Comício da Central do Brasil, em 13/03/1964. O conteúdo do discurso é uma grande síntese do projeto reformista e nacionalista que Jango defendia para a modernizar e desenvolver o Brasil, transformando-o num país justo, democrático e soberano. 

    Tais propostas tinham como objetivo, portanto, promover um amplo processo de inclusão política, econômica e social, pois somente assim (pensavam as Esquerdas Nacionalistas do período) seria possível se construir um país desenvolvido, justo, moderno, democrático e soberano. 
     
    É por tudo isso, inclusive, que vários estudiosos do período chamam essa época de 'Nacional-Estatista'. 
     
    De fato, a implantação do Socialismo não era o que estimulava estes movimentos sociais, bem como a maioria das suas lideranças e tampouco os trabalhadores da época, mas a construção de uma Nação soberana, moderna, democrática e com uma distribuição de renda mais igualitária. 
     
    Tal programa, portanto, não tinha nada de Socialista ou Comunista. 
     
    Assim, pode-se concluir que a Guerra Fria não foi, nem de longe, um aspecto importante para desencadear o Golpe de 64. Ela foi mais um pretexto, utilizado posteriormente pelos defensores do Golpe, do que uma causa efetiva do movimento golpista que derrubou Jango da presidência da República. 
     
    A exploração do sentimento anti-comunista pelos golpistas foi real, mas isso se fez muito mais para explorar os preconceitos, o medo e o elitismo das classes mais abastadas da sociedade da época do que pelo fato do Brasil estar caminhando, inexoravelmente, rumo à construção de uma sociedade Socialista. 
     
    Não estava, pois não eram socialistas o programa e as propostas de mudanças defendidas pelas Esquerdas Nacionalistas do período. 
     
    Na verdade, dentro mesmo destas Esquerdas Radicais havia divergências sobre qual o melhor caminho para se promover as mudanças. Jango e o PTB, que seguia, quase que inteiramente, a sua liderança, pregavam o caminho democrático-parlamentar. 
    Esta foi a estratégia de Jango e, até pouco antes do Golpe de 64, também do PCB. 
     
    E havia a estratégia de Brizola e de importantes lideranças dos movimento sociais (CGT, das Ligas Camponesas, e de setores da intelectualidade e dos estudantes), que pregavam o caminho do confronto, com o fechamento do Congresso Nacional, pois este rejeitava todas as tentativas de se aprovar as Reformas de Base. 
     
    Aliás, este foi um dos principais motivos que levou à radicalização dos movimentos sociais do período, bem como por parte de Brizola. 
     
    Afinal, como o Congresso Nacional não permitia que estas reformas fossem implementadas pela via democrática e legal, muitos líderes e integrantes dos movimentos sociais passaram a defender o fechamento do mesmo, algo que era rejeitado pela imensa maioria da população brasileira. 

    Aliás, a defesa desta tese não tinha sustentação sequer entre a maioria dos trabalhadores que apoiavam as Reformas de Base. O caminho democrático, defendido por Jango e pelo PTB, era o preferido da imensa maioria da população. 

    Movimento liderado por Francisco Julião mobilizou os camponeses brasileiros na luta pela Reforma Agrária nos anos 1950-1960.
     
    Porém, sempre que Jango tentou aprovar as Reformas de Base no Congresso Nacional elas foram rejeitadas. As direitas as rejeitavam por as considerarem radicais demais. E as Esquerdas mais radicais as consideravam moderadas demais. Imprensadas entre os dois grupos, elas nunca foram aprovadas pelo Congresso Nacional, infelizmente. 
     
    Na biografia de Jorge Ferreira sobre Jango, informa-se que, segundo pesquisas feitas neste período, as Reformas de Base eram desejadas pela maioria absoluta da população. 

    Mesmo na cidade de São Paulo, cerca de 60% dos mais ricos e das classes médias queriam a implementação das Reformas de Base. 

    Se em SP, capital do conservadorismo político da época, o sentimento dominante era assim, imagine-se o que acontecia nos demais estados brasileiros. 
     
    Portanto, em função de tudo isso, pode-se afirmar claramente que as três razões apontadas por Jarbas Passarinho para justificar o Golpe de 64 são falsas e sem nenhum fundamento histórico. 
     
    O tal golpe preventivo contra um suposto 'Golpe das Esquerdas' é uma ficção, pois todas as tentativas golpistas levadas adiante, no Brasil, entre 1945-1964, partiram das Direitas e não das Esquerdas. 
     
    Além disso, o projeto continuísta ou golpista de Jango também nunca passou de ficção científica, e é fruto mais do desejo daqueles que possuem uma visão histórica ou pessoal negativa a respeito de Jango, do que de provas históricas concretas que confirmassem a veracidade de tais projetos por parte do presidente João Goulart. 

    Congresso da UNE, em Ibiúna, terminou com todos os estudantes sendo presos. 
     
    A quebra da disciplina e da hierarquia dentro das Forças Armadas era, ainda em 1964, uma tradição iniciada ainda nos 1920, com as chamadas Revoltas Tenentistas, que colocavam oficiais de média e de baixa patente (os chamados 'tenentes') contra a alta oficialidade (Generais, Coronéis, etc). 

    E o próprio fato das Forças Armadas intervirem no processo político vinha desde a Proclamação da República. Culpar as Esquerdas por tudo isso só pode ser piada. 
     
    E as Direitas Conservadoras continuaram com essa política depois de 1945, tento realizado inúmeros Golpes de Estado no período mais democrático da história do Brasil até aquele momento, que foi o de 1945-1964. Nunca tínhamos tido tanta Democracia, no Brasil, como nesta época. 
     
    E de que maneira as Direitas Retrógradas tentavam chegar ao poder neste período extremamente democrático da história brasileira? Através de sucessivos Golpes de Estado. A UDN que o diga... 

    Seus líderes, principalmente Lacerda, viviam batendo nas portas dos quartéis implorando para que os militares promovessem Golpes de Estado. Ganhar eleições com o voto do povo, que é bom, nada, né?

    E quanto à Guerra Fria, o argumento de Passarinho também não se sustenta, pois nem os movimentos sociais (estudantil, operário, camponês, intelectuais), tampouco os principais líderes nacionalistas e reformistas do período (Jango, Brizola e Arraes em especial) e menos ainda as propostas defendidas por ambos eram Socialistas ou Comunistas. 
     
    O programa defendido por tais líderes e movimentos sociais tinham um caráter Nacionalista e Reformista, mas não era nem Socialista e nem Comunista. 


    Alguns destes líderes e militantes eram mais moderados e outros eram mais radicais, mas a imensa maioria destas lideranças não desejava implantar o Socialismo ou o Comunismo no Brasil. 
     
    Assim, é melhor os defensores do Golpe de 64 inventarem argumentos bem melhores do que esses três que analisei acima a fim de justificar o seu posicionamento a respeito do assunto, pois estas três argumentos defendidos por Jarbas Passarinho não tem nenhuma sustentação histórica. 

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