sábado, 10 de setembro de 2011

Jason Burke: A Al-Qaeda é o McDonald's do terrorismo islâmico - por Marcos Doniseti!

Jason Burke: A Al-Qaeda e o Radicalismo Islâmico - por Marcos Doniseti (texto originalmente publicado no blog Guerrilheiro do Entardecer no dia 08/01/2010)

Ótimo livro de Jason Burke, que explica a origem, os métodos, o projeto político e os objetivos do Radicalismo Islâmico, em suas várias vertentes. 

Atualmente estou lendo um ótimo livro (foto acima), chamado 'Al-Qaeda - A Verdadeira História do Radicalismo Islâmico', de Jason Burke, jornalista britânico que trabalha no 'The Observer', um dos melhores jornais britânicos.

No livro, Burke conta as origens da Al-Qaeda, da mesma maneira que mostra que o fenômeno do radicalismo islâmico vai muito além de Bin Laden e da sua organização, sendo um fenômeno extremamente complexo, pois existem inúmeras organizações extremistas islâmicas pelo mundo afora e que tem visões de mundo, prioridades e formas de atuação muito distintas entre si.

No livro, Burke mostra que a imensa maioria das organizações extremistas islâmicas se preocupa, basicamente, com lutas políticas locais, específicas do seus país de origem e que elas são muito fragmentadas e divididas.

Assim, as organizações islâmicas paquistanesas priorizam totalmente a luta dentro do Paquistão, as organizações extremistas afegãs se preocupam com a luta dentro do Afeganistão e assim por diante.

Enquanto isso, a Al-Qaeda já tem uma postura distinta, pois a sua guerra visa não modificar a realidade de um país especificamente (o Afeganistão, a Arábia Saudita, o Egito ou qualquer outro país muçulmano em especial), mas de todo o mundo islâmico.

A Al-Qaeda é uma espécie de 'Internacional Terrorista Islâmica' e, por isso, seus alvos podem estar localizados em qualquer país do planeta no qual os seus inimigos atuam ou estejam presentes.

E quem são, essencialmente, os inimigos da Al-Qaeda de Bin-Laden? São os EUA e os países ocidentais que apóiam o Estado de Israel e que invadiram ou ocuparam territórios islâmicos, seja através de guerras ou da instalação de governos muçulmanos aliados e nos quais ainda tenhamos bases militares norte-americanas.

A Arábia Saudita (o país de origem de Bin Laden, embora seu pai seja tenha origem iemenita), por exemplo, preenche vários destes requisitos: é aliada dos EUA e tem bases militares norte-americanas em seu território. Assim, o governo da Arábia Saudita é considerado um inimigo por Bin Laden e este deseja derrubar o governo do país.

Por que Bin Laden rompeu com o governo saudita, com o qual os demais integrantes da sua família tem um bom relacionamento? A origem deste rompimento está na primeira 'Guerra do Iraque' (1991).

Aqui faço um parêntesis: A família de Bin Laden enriqueceu principalmente com negócios ligados à construção civil e é imensa. Seu pai teve muitas esposas e Bin Laden tem dezenas de irmãos e meio-irmãos. Isso sem falar dos tios, primos, etc, etc.

Com a invasão do Kuwait pelo regime ditatorial de Saddam Hussein, Bin Laden (que, ao contrário do que os EUA disseram, sempre foi um inimigo mortal de Saddam, a quem considerava como a encarnação do Demônio, devido principalmente ao caráter laico do governo iraquiano) defendeu junto ao governo saudita que fosse formado um exército exclusivamente composto por muçulmanos do mundo inteiro, principalmente por veteranos da Guerra do Afeganistão e que o mesmo invadisse o Kuwait e expulsasse as tropas iraquianas do país.

É bom esclarecer que Bin Laden participou da guerra contra a URSS, embora ele tenha sido um personagem de pouca importância na mesma... Mas, a guerra foi importante porque Bin Laden estabeleceu muitos contatos e foi ali que ele recrutou os primeiros integrantes da sua, naquela época, pequena organização, a Al-Qaeda.

Mas o governo saudita, antigo aliado dos EUA, preferiu pedir a ajuda militar norte-americana e britânica a fim de expulsar os iraquianos do país vizinho, o Kuwait.

Com isso, Bin Laden rompeu com o governo saudita e passou a considerá-lo como seu inimigo, dizendo que os países do Ocidente estavam invadindo e ocupando as terras consideradas mais sagradas do Islamismo, que são as da Arábia Saudita, afinal foi lá que nasceu, viveu e morreu o Profeta Maomé e é neste país que se localizam as duas cidades mais sagradas para os muçulmanos (ao lado de Jerusalém) e que são Meca e Medina.

Para Bin Laden, e para muitos outros muçulmanos que pensam como ele, os soldados dos EUA, Grã-Bretanha e de outros países ocidentais que hoje estão presentes em países muçulmanos (Arábia Saudita, Kuwait, Iraque, Afeganistão, Qatar, Paquistão, etc) são os 'Novos Cruzados' e precisam ser, urgentemente, expulsos destas terras.

Portanto, os objetivos de Bin Laden e de seus aliados, é o de recuperar, para os povos muçulmanos, o controle sobre territórios que estão, hoje, sob ocupação de forças militares ocidentais e, também, derrubar os governos muçulmanos (como os da Arábia Saudita, Afeganistão, etc) que são aliados do Ocidente.

O problema para Bin Laden e seus aliados é que a imensa maioria dos muçulmanos pode até concordar com os objetivos deles, mas discorda totalmente dos métodos violentos utilizados pelos extremistas islâmicos, incluindo Bin Laden, é claro.

Burke também mostra, no livro, que não será nada fácil para os EUA e para os seus aliados vencer esta Guerra contra o ‘Terror Islâmico’, pois os extremistas islâmicos estão convencidos de que irão vencer a guerra e a sua luta não tem prazo para terminar.

Eles sabem que os EUA e os seus aliados têm muito mais recursos (militares, financeiros, tecnológicos, etc), mas acreditam que o exemplo de luta deles e os seus sacrifícios serão, cada vez, apreciados pelos muçulmanos e que estes acabarão por se juntar à sua luta, permitindo que vençam a guerra.

Assim, Burke demonstra que estas organizações de extremistas islâmicos se organizam como 'Vanguardas', se inspirando no modelo de organização das Esquerdas revolucionárias leninistas.

Mas, embora a maneira de se organizar tenha semelhanças, é claro que os objetivos destas organizações extremistas islâmicas são completamente diferentes dos das Esquerdas revolucionárias leninistas, pois eles querem criar sociedades totalmente islamizadas, com governos islâmicos, cujas ações sejam baseadas nos ensinamentos da religião islâmica, e que sejam totalmente independentes em relação à qualquer força tida como estrangeira (sejam os EUA, a Grã-Bretanha, a Rússia ou qualquer outro país não-muçulmano).

Portanto, embora estas organizações de extremistas islâmicos se inspirem na religião muçulmana e nos ensinamentos de muitos teóricos e pensadores islâmicos, o objetivo deles é basicamente político, pois eles pretendem expulsar os 'cruzados ocidentais' de terras muçulmanas, derrubar governos muçulmanos aliados do Ocidente ou dos inimigos do Islã e criar governos e sociedades rigidamente islamizados.

Além disso, Burke mostra que, na verdade, muitos grupos de radicais islâmicos são independentes e, muitas vezes, sequer fazem parte de uma organização, unindo-se apenas para desempenhar uma missão específica (Exemplo: A realização de um atentado contra um prédio de algum governo aliado dos EUA) e depois que o atentado foi realizado cada sobrevivente toma um rumo diferente.

Assim, Burke mostra que essa organização que se chama de 'Al-Qaeda' é formada, na verdade, por conjuntos esparsos de ‘células terroristas’ autônomas espalhadas por muitos países e que recebem ajuda para levar adiante missões específicas.

Estas ‘células terroristas’ elaboram um plano, levam o mesmo até o núcleo da Al-Qaeda ou a pessoas que tem papel de liderança na organização e, daí, recebem apoio para realizar um atentado (treinamento, dinheiro, armas, contatos).

Desta maneira, a Al-Qaeda funciona como uma verdadeira franquia terrorista. A Al-Qaeda é o McDonald's do Terrorismo!

Portanto, vale a pena ler este ótimo livro de Jason Burke, que nos dá uma visão muito mais rica e aprofundada da questão do extremismo islâmico do que aquela que a Grande Mídia comercial, seja brasileira ou internacional, costuma oferecer.

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