domingo, 16 de outubro de 2011

Como a Alemanha reunificada destruiu com a integração europeia! - por Marcos Doniseti!

Como a Alemanha reunificada destruiu com a integração europeia! - por Marcos Doniseti!



Vejam o artigo que o 'sabichão' do Clóvis Rossi publicou na 'Folha' de hoje:

CLÓVIS ROSSI - É a hora do calote em série

Link:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2304201104.htm


Em seu artigo, Clóvis Rossi fala das consequências da crise européia (a crise econômica e social, os países decretando calotes etc), mas faltou explicar as causas deste processo, que é a reunificação alemã e a criação do Euro.

Explicando melhor:

A Alemanha está destruindo com a União Européia.

Como assim? Simples: Depois da reunificação, a economia alemã tornou-se 50% maior do que a francesa (a segunda maior do bloco europeu). E a economia alemã é uma verdadeira máquina de exportação.

A Alemanha é a única, entre as principais economias do mundo, que exporta mais de 50% do seu PIB. Os EUA, por exemplo, exportam apenas 10%. O Brasil também exporta somente 10% do seu PIB.

Mas, para manter a sua máquina de exportação a pleno vapor, os governos alemães (principalmente o de Helmut Kohl, Democrata-Cristão, e o de Gerhard Schrôeder, Social-Democrata) promoveram várias reformas importantes no país, como: redução de impostos para as empresas, cortes de direitos trabalhistas e de benefícios sociais, redução dos salários reais dos trabalhadores alemães (há uma década seguida que eles sequer conseguem acompanhar a inflação).

E muitas empresas alemãs, principalmente a indústria automobilística, transferiram grande parte da sua produção para os novos países-membros do bloco europeu (Polônia, Hungria, República Tcheca, etc) onde os custos de produção (impostos, custo de mão-de-obra, direitos sociais e trabalhistas, leis ambientais) são bem menores do que aqueles que vigoram na Alemanha

Com isso, a Alemanha conseguiu se manter como o país que mais exporta no mundo (como proporção do PIB). Mas, a que preço isso foi feito? Ao preço de destruir com a competitividade externa das demais economias do bloco europeu que adotaram o Euro, principalmente das mais fracas (como os Piigs, sigla em inglês que se refere a Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha - Spain -).

E com a adoção do Euro, estes países ficaram impossibilitados de usar das desvalorizações cambiais, dos aumentos de gastos públicos e da redução dos juros para estimular as suas economias (como Lula conseguiu fazer aqui no Brasil) pois para adotar o Euro exige-se que os países cumpram uma série de requisitos (como redução do déficit público para, no máximo, 3% do PIB).

E ao se adotar o Euro, tais países também são obrigados a transferir para o Banco Central Europeu a definição da taxa de juros e da política cambial. Na prática, o Banco Central Europeu tornou-se o Banco Central da Alemanha reunificada.

Tais exigências, draconianas, para a adoção do Euro, foram impostas pela Alemanha recentemente reunificada e, portanto, fortalecida econômica e politicamente dentro do bloco europeu.

Os países-membros da zona do Euro perderam, assim, o controle das suas políticas monetária, fiscal e cambial.

Sem o controle destas políticas, as economias mais frágeis da zona do Euro ficaram impossibilitadas de adotar medidas (aumento de gastos públicos, redução de juros, desvalorização da moeda nacional) que poderiam estimular o aumento das exportações e o consumo interno e, portanto, retomar o processo de crescimento econômico.

Desta maneira, o único jeito destas economias mais frágeis da zona do Euro de conseguirem continuar crescendo foi apelando para um crescente processo de endividamento externo (embora feito dentro do bloco europeu), principalmente com os bancos alemães e franceses, que são os seus maiores credores.

Mas, com o rápido crescimento da dívida externa destes países, tal processo de endividamento chegou ao fim, pois, com a crise, eles não conseguem mais crédito para continuar financiando seus imensos déficits externos.

Endividados até o pescoço e sem crédito, os calotes e moratórias das economias mais frágeis da zona do Euro tornam-se inevitáveis. E isso ameaça seriamente o sistema financeiro da Alemanha e da França, que são as duas maiores economias européias e que sempre foram os líderes do processo de integração.

Com isso, tenta-se atacar os efeitos da crise, adotando-se pacotes de 'ajuda' que impõe duros ajustes às economias atingidas pela crise, obrigando-as a cortar drasticamente os gastos públicos, principalmente os gastos sociais, com salários, direitos trabalhistas e previdenciários, entre outros. 




Desta maneira, transfere-se a conta da crise para os trabalhadores e para a população em geral, preservando-se os interesses do sistema financeiro europeu, principalmente alemão e francês, e que em nada contribui para debelar a crise.

A continuidade destas políticas é impossível pois, gradualmente, elas estão fortalecendo os grupos extremistas dentro do bloco europeu, principalmente a Extrema-Direita.

Um processo de integração com tais características e na qual a maior economia de todas (a Alemanha) arrebenta e destrói com as economias mais fracas é totalmente inviável. Não tem futuro algum.

Como disse Boaventura de Sousa Santos, em artigo reproduzido recentemente neste blog, o atual projeto europeu está morto. Para superar a crise, portanto, será necessário repensar tal projeto, levando-o adiante em novas bases, com outros princípios e políticas.

Mas, quem governa os principais países europeus, hoje, são justamente as forças políticas mais conservadoras do bloco e que foram justamente as responsáveis por impor tais políticas, que levaram a União Européia à sua atual crise.

Logo, a crise européia já deixou de ser apenas econômica e financeira, e tornou-se uma crise social e política e, mais ainda, de quais deveriam ser os princípios que devem nortear o processo de integração europeu.

Portanto, o processo que levou a União Européia à sua crise atual é bem mais complexo do que o texto de Rossi deixa transparecer. E o sujeito ainda gosta de se gabar a respeito do que escreve... Fala sério, vai!

Nenhum comentário: