domingo, 20 de novembro de 2011

A Grécia, os EUA, Gramsci e o efeito Orloff! - por Marcos Doniseti!

A Grécia, os EUA, Gramsci e o efeito Orloff! - por Marcos Doniseti!
Quando o assunto é a crise do capitalismo neoliberal gloabalizado, um fato que pouco se comenta a respeito é que a dívida pública TOTAL dos EUA (reunindo as 3 esferas de governo:federal, estadual e municipal) chega a 150% do PIB. 

Geralmente, a Mídia divulga que a dívida ianque é de 100% do PIB (ver link abaixo). Mas esta é apenas do governo federal dos EUA. Porém, quando se leva em consideração, também, as dívidas dos estados e cidades americanas, a mesma atinge gigantescos 150% do PIB.

E o déficit público dos EUA está em torno de 9% do PIB, outra enormidade.

Enquanto isso, a Grécia faliu com uma dívida pública de 165% e um déficit público de 8,5% do PIB.

No aspecto das contas públicas, portanto, os EUA são uma Grande Grécia, mas com uma economia muito mais rica, competitiva e diversificada, é claro.

Mas, por aí se vê o tamanho do abacaxi ianque que os próximos governos do país terão que descascar, de uma forma ou de outra.

Por isso mesmo que fazer uma nova guerra no Oriente Médio, contra o Irã, quando a prioridade da política externa de Obama é a Ásia Central, seria uma gigantesca burrice. 

Até porque, tal guerra representaria uma nova fonte de gastos para o governo dos EUA, aumentando ainda mais a dívida e o déficit públicos. Vejam só o caso das Guerrsa do Iraque e do Afeganistão, nas quais os EUA gastaram a 'módica' quantia de US$ 3 trilhões. 

E uma guerra contra o Irã seria um caso totalmente diferente do da Líbia. Nesta, um ditador brutal, que reprimia violentamente o seu próprio povo, foi derrubado com ajuda interna. No Irã, nada disso aconteceria, até porque o governo do país desfruta, sim, de grande apoio popular. 

Além disso, os iranianos não nutrem qualquer simpatia pelos EUA, muito pelo contrário. 

Os EUA são duramente atacados, pelos iranianos, em função do fato de que o único governo verdadeiramente liberal e democrático da história do país, o de Mossadegh, foi derrubado através de um Golpe de Estado organizado pela CIA e pelo MI-6, o serviço secreto britânico, quando Eisenhower e Churchill governavam os EUA e o Reino Unido, em 1953.

A situação dos EUA somente não é pior porque o mundo inteiro, principalmente a China, financia o déficit externo dos EUA. 


Quanto à China, ela já começou a fortalecer o seu mercado consumidor interno justamente poder diminuir a sua dependência em relação às exportações. Esta é, aliás, a grande prioridade do governo chinês nesta década (2011-2020).


E a China somente não abandona o dólar de uma vez porque ela teria um gigantesco prejuízo com isso. Se ela jogasse os dólares e os títulos públicos ianques no mercado internacional, o valor dos mesmos iria desabar e ela, China, teria um gigantesco prejuízo.

Porém, nas próximas décadas, a China irá procurar diminuir a compra e a quantidade de dólares e de títulos dos EUA em seu poder. Apenas é bom notar que ela terá o cuidado de fazer isso sem que ela mesma seja prejudicada por tal processo. Daí o fato de que ela desenvolverá tal política com muita cautela e numa velocidade não muito rápida, é claro.

E jogar os EUA numa brutal recessão, que é o que aconteceria se a China parasse de financiar os EUA e se livrasse destes débitos ianques, não é também do interesse chinês, visto que os chineses tem um imenso superávit comercial com os EUA e os mesmos são o maior mercado de exportações chinês.

Logo, a estratégia chinesa é a de promover mudanças graduais neste cenário, sem que isso provoque um baque repentino na economia mundial, o que prejudicaria fortemente a própria China.

E não se esqueçam de que a China é uma civilização milenar, com mais de 5 mil anos de história. Eles não são governados por um banco de irresponsáveis ou de 'porra-loucas', muito pelo contrário. Seus dirigentes são cautelosos e pensam muito bem antes de fazer algo. Perto deles, ainda estamos engatinhando.

No entanto, as diferenças entre as economias dos EUA e da Grécia, que são imensas, como eu mesmo já afirmei aqui, não podem ser usadas para escamotear o fato de que a economia ianque enfrenta, sim, uma crise gravíssima e que serão necessários muitos anos até que ela volte a crescer, de fato.

A redução do déficit público e da dívida pública ianques não se farão sem um custo econômico e social elevado, como o aumento de desemprego, da pobreza e da miséria. 

Aliás, isso já está em pleno andamento e há vários anos. E a tendência é que isso continue e por muito tempo, ainda.
 
Além disso, depois que essa crise for superada (se for...) daqui a muitos anos, os EUA sairão muito menor e enfraquecidos da mesma. Até lá, os BRICS já terão crescido bastante e aumentado ainda mais a sua inflência na economia global. A parcela dos EUA na economia mundial, que diminui a cada década, será bem menor do que a atual. 
 
A queda dos EUA somente não será mais rápida, porque não existe, ainda, no mundo, um país ou um bloco de países em condições de fazer o que os EUA fazem hoje: emitir a moeda reserva de valor e que é a mais utilizada nas trocas internacionais.

O Euro cresceu muito nas últimas décadas, mas o dólar ainda representa 60% das reservas globais governamentais... Mas, há 30 anos, ele representava mais de 90%. Logo, a queda do dólar já está em pleno andamento.

Com o fortalecimento das economias dos BRICS, fatalmente em algum momento, nas próximas décadas, suas moedas passarão a ser vistas como um ótimo investimento pelos investidores globais e comporão grandes das reservas internacionais e serão muito mais usadas no comércio internacional do que são atualmente. E elas deverão vir a fazer parte de algum tipo de 'cesta de moedas' que deverá substituir o dólar, já que este valerá cada vez menos. 
 
Quanto ao corte de gastos militares, como é sugerido por alguns para combater a crise ianque, isso é muito fácil de falar e muito difícil de ser feito, dada a força do lobby armamentista nos EUA. Tanto que os EUA acabaram de participar da Guerra da Líbia e já se preparam para um novo conflito, contra o Irã. Assim, como será possível cortar gastos militares, se o envolvimento dos EUA em guerras aumenta cada vez mais? Sem chance. 
 
E vejam que os Republicanos e os membros do Tea Party nunca falam em corte de gastos militares. Falam em cortar direitos sociais, trabalhistas, salários, gastos com previdência e assistência social. Mas cortar gastos militares, disso eles não falam, não. 
 
A decadência dos EUA já está em pleno andamento e, na verdade, ela começou por volta de 1965-1975, quando alguns  acontecimentos abalaram o seu poderio: o fim do padrão-ouro de dólar, o escândalo de Watergate, a derrota na Guerra do Vietnã e a Grande Recessão de 1974-1975, com o primeiro Choque do Petróleo. A atual crise econômica enfrentada pelos EUA é mais um capítulo deste longo processo de decadência do Império Ianque.
 
Desde essa época, o poderio ianque está diminuindo em termos globais. 
 
Mas, a história demonstra que a queda de Impérios (todos os que já existiram na história, em algum momento, desmoronaram... Com os EUA não será diferente) é um processo longo, demorado, complexo e repleto de crises. Foi isso o  que aconteceu com o Império Romano, Chinês, Persa, Britânico, Turco-Otomano, Austro-Húngaro, Russo czarista, Soviético. Todos eles se desmantelaram depois de um longo processo de crise, que foi fragilizando tais impérios... E com os EUA não será diferente. O processo será o mesmo.

A decadência ianque irá atravessar todo o século 21, que será o tempo necessário durante o qual novas potências emergirão no cenário global, como a China, Índia (que eram as duas maiores economias do mundo até o início da Revolução Industrial inglesa, por volta de 1750-1760, e que voltarão a sê-lo, provavelmente, no máximo, até 2050-2060) e o Brasil. Não incluo a Rússia nesta lista porque ela não é uma nova potência, mas uma antiga (e nem tão antiga, assim...) que está tentando voltar a atuar como protagonista no cenário global.

Depois que o processo de transição do mundo, Unipolar, para este novo mundo Multipolar estiver, digamos, 'concluído', lá por volta de 2075-2100, teremos, enfim, um mundo globalizado, de fato, em ação, com China, Índia, Brasil e Rússia atuando fortemente no cenário mundial, e com os EUA, Europa e Japão tendo que dividir espaço com as novas potências, gostem ou não disso.
 
Até lá, porém, muitas guerras e crises acontecerão. Estas representam, a grosso modo, as dores do parto deste novo mundo multipolar que está sendo gerado agora, neste momento histórico. 

Como disse o genial Antonio Gramsci: 
 
"A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem."

Os sintomas mórbidos que vemos hoje são a crise econômica e as guerras, em especial.

Caso os EUA não tomem as medidas necessárias para superar a crise (essencialmente, adotar políticas que levem a uma melhor distribuição de renda, recuperando o mercado consumidor do país) eles poderão se transformar na Grécia do futuro.

Lembrem-se do efeito Orloff: 'eu sou você, amanhã".

Acordem, ianques, senão, daqui a algumas décadas vocês estarão na mesma situação na qual os gregos se encontram atualmente. 

Links: 

Gastos dos EUA em guerras:

http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/427/artigo77136-1.htm

Dívida pública dos EUA supera 100% do PIB (obs: esta é apenas a dívida do governo federal dos EUA)

http://exame.abril.com.br/economia/mundo/noticias/divida-publica-dos-eua-supera-100-do-pib

Dívida pública grega sobe a 148,6% do PIB em 2010

http://exame.abril.com.br/economia/mundo/noticias/divida-publica-grega-sobe-a-148-6-do-pib-em-2010

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