domingo, 27 de novembro de 2011

O PT em seus primeiros anos! - por Marcos Doniseti!

O PT em seus primeiros anos! - por Marcos Doniseti! (atualizado no dia 28/11/2011)



Nos primeiros anos de sua existência, o primeiro caminho escolhido pelo PT, que foi  marcado pelo purismo e por um significativo sectarismo, deu errado, levando Lula a ser derrotado em 3 eleições presidenciais consecutivas (em 1989, para Collor e em 1994 e em 1998, para FHC).

Naquela época, nos seus primeiros anos, o PT 'optou' pelo isolamento político, recusando-se a fazer alianças com outros partidos. Em 1989, por exemplo, os únicos partidos que se coligaram ao PT na eleição presidencial foram o PSB e o PCdoB.

Esta estratégia de isolamento fracassou com as derrotas de Lula em 1989 e em 1994, embora nesta eleição já se defendesse alianças mais amplas, mas que não se concretizaram naquele momento. Esta foi uma época em que o PT recusava alianças até com partidos como o PDT brizolista. E vejam que este era o PDT de Brizola e não o do Carlos Lupi, hein!

Esse isolamento político foi fatal para Lula, principalmente em 1989. Afinal, fora o PT, apenas o PCdoB e o PSB o apoiaram. Lembro quando Lula recusou-se a pedir o apoio de Ulysses Guimarães e do PMDB, no 2o. turno, para derrotar Collor. E olha que o PMDB, na época, dominava quase que inteiramente o Congresso Nacional (tinha maioria absoluta na Câmara dos Deputados e no Senado) e possuía 22 dos 23 governadores de estado. Apenas em Sergipe tivemos a vitória do PFL (ver mapa abaixo).

Lula não pediu o apoio de Ulysses e do PMDB e foi derrotado. Lula perdeu para Collor? Não. Ele perdeu para o purismo e para o sectarismo que dominavam o PT naquele momento, incluindo, praticamente, todas as diferentes lideranças e tendências existentes no partido, tantos as mais moderadas, como as mais radicais.

A postura sectária e purista do PT foi o que inviabilizou qualquer possibilidade de vitória de Lula em 1989. E para agravar ainda mais a situação, Collor contou com um maciço apoio da Grande Mídia e do grande empresariado. Calcula-se que cerca de US$ 200 milhões foram 'investidos' na campanha de Collor, apenas no segundo turno da eleição. O próprio Collor reconheceu, posteriormente, que houve uma enxurrada de dinheiro privado em sua campanha no 2o. turno, dado o temor dos empresários com a possibilidade de vitória de Lula.

Em 1994 e em 1998 não havia muito o que o PT pudesse fazer, devido ao Plano Real. Antes da adoção do Plano Real, Lula liderada disparado todas as pesquisas eleitorais. Chegou a ter 42% das intenções de voto. Mas, isso se devia mais em função do forte desgaste do governo Collor-Itamar, marcados pelas privatizações desnacionalizantes, recessão, desemprego, arrocho salarial, aumento da pobreza e da miséria.

Porém, o Plano Real mudou radicalmente este cenário e, após a sua implantação, em 01/07/1994, bastaram 3 semanas para que FHC ultrapassasse Lula nas pesquisas e caminhasse rumo à vitória, sem maiores dificuldades. Os brasileiros ansiavam, já há muito tempo, pela estabilidade econômica, e isso foi fundamental para que o plano, em um primeiro momento, fosse muito bem visto pela maioria absoluta da população.

Enquanto isso, o PT foi encarado, por uma expressiva parcela da população, como um inimigo da estabilidade econômica, devido às críticas feitas inicialmente ao plano. E a campanha de FHC soube explorar bem essa acusação, nas duas eleições presidenciais, 1994 e 1998, amedrontando e aterrorizando a população ao dizer que se Lula vencesse a eleição ele acabaria com o Plano Real.

Por isso é que, depois de duas derrotas seguidas, para Collor e FHC, em 1989 e em 1994, é que a partir da eleição de Zé Dirceu, em 1995, para a presidência do PT, tal política de isolamento político começou a ser abandonada e o PT se abriu para fazer alianças bem mais amplas, bem como para promover um crescente processo de profissionalização das suas campanhas eleitorais, com a contratação de publicitários renomados, cabos eleitorais pagos, entre outras medidas que visavam fortalecer eleitoralmente o PT e levar Lula à presidência da República.

Como diz Lincoln Secco, em seu livro, 'História do PT', ocorreu um crescente processo de burocratização do partido, com seus líderes e militantes ocupando cargos públicos, de confiança ou de assessoria, por exemplo. Os militantes perdem espaço no PT e a burocracia partidária, profissionalizada, se fortalece cada vez mais, junto com os petistas que passaram a ser eleitos, em números crescentes para ocupar cargos em prefeituras, governos estaduais e no Parlamento (municipal, estadual e federal).


Quanto à questão das alianças , elas se ampliaram e já em 1998, por exemplo, Leonel Brizola foi o vice de Lula. Inclusive, em muitos momentos e a campanha Lula e Zé Dirceu é que pediram para que Brizola moderasse as suas críticas ao governo FHC. Esta foi a primeira vez em que o PT se aliou ao PDT em uma eleição presidencial e Brzola mostrou-se mais radical no discurso do que os próprios petistas. 

E esbravejar e atacar os governos de plantão era a política do PT até 1994 e, nas campanhas presidenciais, o discurso petista limitava-se a isso, deixando de lado a apresentação de programas de governo, erro este que foi corrigido posteriormente, principalmente em 2002, quando Lula foi vitorioso.

Quem não se lembra do 'Fora FMI' e do 'Moratória Já' e outros slogans do mesmo tipo, que assustavam até os segmentos mais moderados das classes médias e dos empresários?

O PT era muito bom para esbravejar, para criticar, mas esquecia de mostrar para a população o que ele faria caso chegasse à presidência da República. Somente em 1998 é que essa postura começou a mudar. Mas, o processo de trasnformação do PT em um partido político destinado a vencer eleições ainda estava em andamento e não estava totalmente consolidado. As lembranças, mesmo entre o eleitorado, daquele PT radical, sectário e purista dos primeiros tempos ainda estavam muito fortes. E isso assustava não apenas os empresários e as classes médias tradicionais, mas até segmentos expressivos das camadas populares, sem a tradição de se mobilizar e de se mobilizar politicamente e que viam no PT um partido de 'baderneiros'.

André Singer, em seu excelente estudo 'As Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo', mostrou que essa visão de setores mais populares do eleitorado em relação ao PT como um partido de 'baderneiros' foi muito importante nas derrotas de Lula em 1989, 1994, e em 1998, levando a que os mesmos preferissem votar em Collor e em FHC.

E o PT pré-1995, anterior à eleição de Zé Dirceu para a presidência do partido, a meu ver, sofria de um outro problema sério: Ele não era um partido, de fato, mas uma grande Frente de Esquerda, com inúmeras correntes se digladiando pelo poder internamente. Existiam até mesmos tendências que, na verdade, atuavam como um 'partido dentro do partido' e que se utilizavam da estrutura petista em seu próprio proveito. Estas tendências internas tinham estratégia, jornais, sedes  e finanças próprias, inteiramente separadas das do PT.

E os conflitos entre elas era muito significativo e tomava a maior parte do tempo e da energia dos seus integrantes. Dias atrás, Plínio de Arruda Sampaio disse que o maior problema do PSOL é justamente. Bem, o PT, antigamente, era um PSOL dezenas de vezes maior.

Gastava-se tanto tempo e energia nestes conflitos internos, que não sobrava nem um e nem outro para apresentar as propostas do partido para a sociedade e convencer a população deste projeto e muito menos para combater os adversários. O partido não fazia isso, até porque o partido, mesmo, não existia. Existia uma grande Frente Esquerdista e na qual coexistiam, inclusive, tendências que desprezavam o processo eleitoral e que ainda diziam que a democracia 'burguesa' era uma farsa.


Foi somente quando percebeu que tal política, sectária e isolacionista, estava condenada ao fracasso é que o PT tomou um outro rumo, o que aconteceu com a partir de 1995, quando Zé Dirceu se elegeu presidente do partido com o total apoio de Lula. Na verdade, já na campanha presidencial de 1994, Lula tentou se desvencilhar da direção do partido que, naquele momento, se encontrava sob o controle das tendências mais esquerdistas e sectárias. O resultado disso, que foi a divisão entre o comando da campanha de Lula e a direção do PT, contribuiu para a segunda derrota seguida de Lula.

E não foi o lulismo que destruiu com a chamada 'Utopia de Esquerda', como alguns críticos do PT atual afirmam, a meu ver.

O grande problema é que com estas posturas sectária e purista Lula e o PT não conseguiram se viabilizar política e eleitoralmente no país a ponto de vencer uma eleição presidencial e derrotar as forças da Direita conservadora. Tal proposta política, fortemente isolacionista, nunca teve apoio popular suficiente para ser vitoriosa em eleições presidenciais. E Lula e o PT não conseguiram esse apoio pois seu projeto era isolacionista, sectário e purista.

Enquanto isso, na hora de derrotar Lula e o PT, as forças conservadoras deixavam as diferenças de lado e se uniam, levando-as à vitória em 1989, 1994 e 1998.

Além disso, caso Lula tivesse vencido a eleição em 1989, seu governo dificilmente se sustentaria por muito tempo e a radicalização política-social (estimulada pela sua vitória na eleição e pela reação das forças conservadoras contra o seu governo) atingiria níveis estratosféricos.

Ocorreu um caso, naquela época, que mostrava muito bem o quanto Lula era mal visto pelas forças mais conservadoras, tanto de classe alta, como de classe média mais tradicional. Lula esteve no estádio do Morumbi poucos dias antes da eleição no 2o. turno, contra Collor, e foi fortemente hostilizado pelos torcedores, principalmente os que se encontravam nas cadeiras numeradas do estádio são-paulino, que era frequentado por um público, basicamente, de classe média mais conservadora. Esse episódio, aparentemente isolado, mostrava bem o quanto Lula teria dificuldades para governar, naquele momento, caso tivesse vencido as eleições.

Se a oposição ao seu governo, entre 2003-2010, foi brutal, violenta e radical, por parte das forças conservadotas, mesmo com ele fazendo um governo moderado de Centro-Esquerda, imaginem o que não teria acontecido entre 1989-1994, quando Lula e o PT adotavam um discurso muito mais agressivo?

E também não se pode esquecer que aquela eleição presidencial de 1989 foi diferente das subsequentes, pois ela foi solitária. Votamos apenas para presidente da República. O Congresso Nacional que existia, naquele momento, tinha sido eleito em 1986 e, no mesmo, o domínio do PMDB era total e absoluto, pois o mesmo havia sido eleito no ano do Plano Cruzado. Os governadores de estado e os deputados estaduais também tinham sido eleitos em 1986. O PMDB elegeu 22 dos 23 governadores de estado em 1986.Somente o estado de Sergipe elegeu um governador do PFL.

Logo, a presença do PT na política institucional brasileira, naquele momento (1986-1994), era bastante frágil, com poucos deputados, senadores e governadores que pudessem dar sustentação política a um eventual governo Lula.

Este Congresso Nacional e os governadores e deputados estaduais, eleitos em 1986, somente foram renovados na eleição de 1990 e tomaram posse no ano seguinte, 1991.


Logo, caso tivesse vencido a eleição presidencial de 1989, um eventual governo de Lula teria que se entender com o PMDB, que era amplamente majoritário, nas três esferas de governo: municipal, estadual e federal.

Um cenário político-social muito semelhante com o existente em 1963-1964 teria se instalado no país e as chances de Lula não terminar o seu mandato seriam muito grandes, tal como aconteceu com Jango. Isso era inevitálvel? Não. Mas, era uma possibilidade concreta, sem dúvida alguma.

E se formos estudar um pouco mais a história brasileira, veremos que sempre que tivemos um processo de radicalização política-social no Brasil, quem saiu vitorioso do mesmo foram as forças das Direitas conservadoras e não as Esquerdas. Vide o que aconteceu em 1935-1937 e em 1964, em que forças de Direita e de Esquerda se enfrentaram abertamente. Em ambas as ocasiões, as forças conservadoras saíram vitoriosas.

Assim, entendo que o PT, enquanto partido político destinado a vencer eleições, propriamente dito, começou a existir, apenas, em 1995. Antes, ele não era um partido, mas uma grande Frente de Esquerda, dentro da qual cabia a maior parte das forças da Esquerda brasileira da época. Ele era o 'partido ônibus' das Esquerdas. Era o PMDB das Esquerdas.

Enquanto atuou como Frente, e não como partido, o fato é que o PT fracassou na sua tentativa de derrotar as Direitas e de levar Lula à presidência da República.

E foi este fracasso que levou Lula a mudar o rumo do PT e a apoiar a candidatura de Zé Dirceu para a presidência nacional do partido, em 1995. Foi a partir deste momento que a idéia de transformar o PT em um partido político propriamente dito, com um mínimo de unidade interna e com um discurso para o público externo que fosse coerente com a linguagem interna dos petistas e que priorizasse a obtenção de vitórias eleitorais crescentes ganhou força e tornou-se hegemônica dentro do PT.

Isto era algo que a Articulação, liderada por Lula, se propunha a fazer desde a sua formação, em 1983, mas ela somente conseguiu maioria no partido para impor tal política a partir de 1995, quando Zé Dirceu se elegeu presidente do PT. Antes, isso era inviável, dada a força de lideranças e tendências do partido que eram contrárias a tal proposta. Mesmo a vitória de Zé Dirceu para a presidência doPT, em 1995, foi bastante apertada e a mesma acirrou os conflitos internos dentro do partido.


Foi sob o comando desta nova direção, inteiramente apoiada por Lula e tendo Zé Dirceu como presidente nacional do partido, que o PT começou a moderar o seu discurso e as suas práticas políticas, bem como a fazer alianças políticas e eleitorais mais amplas, que Lula conseguiu liberdade e apoio suficiente do PT para conduzir, em 2002, uma campanha eleitoral que viabilizou a sua eleição para a presidência da República. 

Assim, estes foram, sem dúvida alguma, alguns dos fatores mais importantes que abriram caminho para a vitória de Lula na eleição presidencial de 2002.

Links:

As eleições no Brasil:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_elei%C3%A7%C3%B5es_presidenciais_no_Brasil

Raízes sociais e ideológicas do lulismo - por André Singer:

http://novosestudos.uol.com.br/acervo/acervo_artigo.asp?idMateria=1356

PT: Um Partido para a América Latina - por Lincoln Secco

http://www.fpabramo.org.br/sites/default/files/TD86-lincoln.pdf

Lula e sua herança - por Wanderley Guilherme dos Santos:

http://www.cartacapital.com.br/politica/lula-e-sua-heranca/

PT 30 anos:

http://www.fpabramo.org.br/tags/tags-1345

O Zé Dirceu realmente existente - por Emir Sader

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=1&id_noticia=166030

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