terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Raúl Prebisch e a sua longa e rica trajetória de vida! - por Marcos Doniseti!

Raúl Prebisch e a sua longa e rica trajetória de vida! - por Marcos Doniseti!


Terminei de ler o livro 'Raúl Prebisch (1901-1986): A construção da América Latina e do Terceiro Mundo', de Edgar J. Dosman, e recomendo a leitura do mesmo a todos que se interessam por economia, pela história da América Latina e pela construção de um mundo mais justo e igualitário, pois a vida do grande economista argentino retratado nesta obra está intimamente ligada a estes assuntos. 

Entre outras informações importantes, o livro mostra como Prebisch desafiou ao 'pensamento único' de sua época, que dizia que o livre-comércio internacional seria igualmente benéfico para todos os povos e nações, mostrando que isso, de fato, não acontecia.

Prebisch demonstrou que, na verdade, o livre-comércio beneficiava muito mais aos países industrializados e que a tendência da economia mundial mostrava que os países exportadores de matérias-primas (ministérios e alimentos) eram prejudicados pelo livre-comércio, pois os preços dos produtos que eles exportavam caíam constantemente, enquanto isso não acontecia com os produtos industrializados. Esta situação gerava um aumento crescente das desigualdades entre países industrializados e os demais, prejudicando a estes que eram, essencialmente, produtores exportadores de matérias-primas. 

Daí, Prebisch passou a defender a necessidade de que os países em desenvolvimento, dependentes de matérias-primas e cujas economias funcionavam em função do desenvolvimento das economias industrializadas (dependendo do crescimento destas), investissem fortemente na industrialização, via substituição de importações.

Tal projeto deveria, porém, estar atrelado a programas de aumento da produtividade e de elevação das exportações, a fim de que tais indústrias se tornassem competitivas internacionalmente. 

Assim, Prebisch sempre condenou programas de industrialização via substituição de importações que resultassem na construção de economias fechadas, autárquicas, caracterizadas pela baixa produtividade, pela ineficiência e pela existência de estatais ineficientes que gerassem grandes déficits públicos e taxas de inflação elevadas. Sempre que políticas desse naipe eram implementadas, Prebisch tornava-se um crítico das mesmas. 

Porém, a vida de Prebisch não se limitou, apenas, a fazer críticas ou a elaborar novas explicações para o funcionamento da economia latino-americana e mundial. Ele também foi um homem de ação, durante toda a sua vida.

Desta maneira, ele se tornou um dos principais fundadores de instituições como o Banco Central da Argentina (que foi criado e inteiramente estruturado por ele, que o tornou uma ilha de excelência mesmo em meio ao conturbado cenário político-social da Argentina e do mundo nos anos 1930-1940), da Cepal, da Unctad e do Ilpes. 

Desta forma, Prebisch procurou colocar suas idéias em prática, enfrentando todos os tipos de dificuldade e de obstáculos, inclusive de natureza política-ideológica. Exemplo disso, foi a oposição do governo dos EUA à criação e a transformação da Cepal em uma instituição permanente, como parte integrante do chamado 'sistema ONU'. Foi Prebisch quem conseguiu comprovar a necessidade de existência da Cepal e quem mais lutou para a sua continuidade. 

Prebisch também foi o principal defensor e criador da Unctad, na qual desenvolveu um trabalho visando criar regras mais justas quanto, principalmente, ao funcionamento do comércio internacional e da realização de empréstimos e de investimentos  internacionais que beneficiassem aos países mais pobres.

Portanto, Prebisch participava intensamente debates com os economistas e representantes dos governos dos países ricos e de instituições ligadas aos mesmos (como o GATT, FMI e Banco Mundial), tentando abrir os olhos deles para a necessidade de se construir uma 'Nova Ordem Econômica Internacional' que possibilitasse a criação de um mundo mais rico e mais justo. 


Além disso, já em 1941 Prebisch defendia que o Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai deveriam começar um processo de integração de suas economias, criando uma área de livre-comércio e uma união aduaneira entre eles.


Assim, ele foi o pioneiro na defesa da construção daquilo que, hoje, é o Mercosul.

Prebisch também defendia a realização de grandes investimentos públicos na área social e a realização de uma reforma agrária, a fim de melhorar as condições de vida dos trabalhadores rurais e dos camponeses, dada a brutal exploração que os mesmos sofriam em, virtualmente, todos os países da América Latina, mesmo na rica Argentina, algo que ele pode constatar pessoalmente. 

Assim, esse brilhante e genial economista argentino sempre colocou o seu imenso talento e conhecimento à serviço do desenvolvimento que, para Prebisch, não era apenas um processo meramente econômico, mas também ético, visando construir um mundo baseado no desenvolvimento, no respeito às liberdades democráticas e na justiça social, tanto na América Latina, como em todo o então chamado Terceiro Mundo. 

Com o advento do Neoliberalismo, a partir dos governos Reagan (com o qual Prebisch antipatizava fortemente) e de Thatcher, na década de 1980 em diante, muitos economistas e políticos pensaram que as idéias e projetos de Prebisch tinham se tornado ultrapassados. 

Aliás, já na época em que tais políticas neoliberais começaram a ser implementadas, Prebisch as criticou fortemente, alertando as pessoas sobre mais esse modismo intelectual. Para ele, isso não era nenhuma novidade, pois ele já havia presenciado algo semelhante, logo depois da Primeira Guerra Mundial, quando economistas latino-americanos e do mundo inteiro louvavam a economia liberal que, naquele momento, funcionava sob a liderança da Grã-Bretanha. 

Porém, a mais recente crise econômica global, que abalou fortemente as economias dos países mais ricos (principalmente dos EUA e da UE) mostra que Prebisch estava certo em condenar as políticas Neoliberais que passaram a ser adotadas pelo mundo afora, pois tal crise mostra que as críticas que ele fazia ao Neoliberalismo eram mais do que corretas. 

O tempo mostrou que Prebisch estava com a razão. E este é mais um motivo para se ler este ótimo livro, que mostra a vida e as lutas deste grande argentino e latino-americano que lutou, intensamente, para a construção de um mundo desenvolvido, justo, democrático e ético. 

Link:

Autor de biografia de Prebisch fala sobre as contribuições do economista argentino:

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/948443-america-latina-e-mais-autonoma-em-relacao-aos-eua-diz-dosman.shtml

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