quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A 'reafundação' do PSDB - por Marcos Doniseti!

A 'reafundação' do PSDB - por Marcos Doniseti!



Um leitor do blog do Nassif, chamado Weden, que sempre escreve ótimos textos sobre a realidade política nacional, publicou um texto por lá (link: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-livro-e-a-possivel-refundacao-tucana)  no qual ele apresenta alguns argumentos em defesa da tese de que o PSDB ainda pode ser 'refundado'.

Daí, eu escrevi um texto respondendo aos principais argumentos do Weden, e que reproduzo abaixo:

A 'refundação' do PSDB - por Marcos Doniseti!

Não acredito na possibilidade de refundação do PSDB e por vários motivos, que exponho abaixo:

1) Weden - "Serra consegue se impor por meio de sua vinculação com o maior estado da Federação, e pelas armas bem conhecidas, materializadas em ameaças, dossiês, estratégias de desagregação e fortes vínculos com os grupos de mídia que o apoiam. Ou seja, se Serra não estivesse em São Paulo, ou não contasse com uma forte mídia - e com um forte aparato subterrâneo - nada seria.":

R - E é justamente por todas essas conexões que Serra tem com a Grande Mídia e devido ao fato de que ele, ao ver que foi abandonado às feras pelo PSDB, poderá sair atirando para tudo quanto é lado, tentando levar os outros líderes do partido para o fundo do poço junto com ele, que não acredito que o PSDB irá tentar se livrar de Serra. É como se o PT tentasse se livrar de Zé Dirceu... Não dá. Há uma relação umbilical entre Serra e o PSDB. Jogar um fora, significa jogar o partido inteiro fora, até porque as práticas de Serra não diferem muito das outras lideranças do partido. Ele pode até jogar mais pesado do que os outros, mas estes estão longe de serem santos e também terão muito a perder se tentarem se livrar de Serra.

O PSDB tentar se livrar de Serra é aquela velha história: fácil de falar... quase impossível de ser feito.

2) Weden - "Cabe ao PSDB propor um programa político sério, orgânico, alternativo ao que temos hoje, e não apostar somente na esperança de uma "crise política derradeira" que destituísse o governo atual.".

R - O PSDB tem um programa, e há muito tempo (desde o governo FHC, no mínimo) e é o Neoliberalismo. Ah, mas este desmoronou no mundo inteiro? E daí?

Quando a URSS e o Socialismo Real também desmoronaram, e a China apostou numa versão própria de Capitalismo de Estado, os partidos comunistas (mais ou menos identificados com o Socialismo Real da URSS ou da China) também desmoronaram e em quase todos os países. Ou eles se tornaram nanicos, com quase nenhuma influência real na vida política-social do país, como o PCB brasileiro, ou aderiram de mala e cuia ao Neoliberalismo, como foi o caso do PPS de Roberto Freire, que virou, praticamente, uma sub-legenda do PSDB.

Então, da mesma forma que os PCs pelo mundo afora tiveram que acertar as contas com o Socialismo Real e se enfraqueceram fortemente após o colapso deste sistema, o mesmo acontecerá com os partidos fortemente identificados com o Neoliberalismo, agora, neste momento em que o Projeto Neoliberal desmoronou nos países centrais (EUA e UE) e já está enfraquecido pelo seu fracasso na América Latina há muitos anos.

Nem o Chile, considerado o maior (e o único, depois que o México também desmoronou) caso de sucesso, na América Latina, do projeto Neoliberal, pelos defensores do Neoliberalismo, está se aguentando mais.


O povo chileno, atualmente, exige maior intervenção do Estado na economia e, principalmente, na área social. E a recusa de Piñera em adotar tal política destroçou com a sua popularidade. Tanto que, hoje, no Chile, a figura pública mais popular é a Camila Vallejo, que liderou os protestos durante todo este ano na pátria de Allende e Neruda.

Na verdade, não existe outra alternativa ao PSDB que não seja torcer e lutar por uma crise devastadora que mine a popularidade de Dilma e, por extensão, de Lula. E é nisso que o PSDB e os seus patrões da Grande Mídia apostam e já há muito tempo. Sem essa crise devastadora, eles sabem que as suas chances de voltar a governar o Brasil são quase que inexistentes.

Além disso, hoje, o grande rival do PSDB na política brasileira não é mais o PT, mas legendas como a do Kassab, o PSD, que disputa, em grande parte, a mesma fatia do eleitorado do PSDB e do DEM. Não foi à toa que grande parte dos principais líderes do PSD vieram do DEM-PPS-PSDB.

É com o PSD de Kassab, governista até o último fio de cabelo, e que vota sempre 100% a favor do governo Dilma no Congresso Nacional, que o PSDB deveria se preocupar e não com o PT. É o PSD de Kassab, caso se viabilize em nível nacional, que poderá tirar grande parte dos votos que, hoje, são dos tucanos.

O fato é que, nos últimos anos, o PSDB encolheu quando comparado com o PT e com o PMDB e não tem mais estatura para disputar com estes dois, pelo menos a nível nacional e em eleições presidenciais.

3) Weden - "Ora, o PSDB precisa de um programa econômico, que seja fruto de um pensamento pós-neoliberal, o que não representa necessariamente que tenha que voltar aos antigos ideias sociais-democratas.".

R - Que proposta 'Pós-Neoliberal' é essa? Ninguém sabe. Ninguém viu.

E duvido que alguém dentro do PSDB, hoje, esteja pensando nisso.

Recentemente, aliás, os principais economistas ligados ao PSDB se reuniram e as grandes propostas que eles tiraram da discussão foi a defesa da privatização do FGTS, do FAT e o fim dos empréstimos subsidiados do BNDES... Mais do mesmo, portanto.

O Nassif, aliás, comentou esse evento em um excelente artigo para a Carta Capital, na qual ele, com precisão, disse o seguinte:

"O encontro já não tinha povo. Com a proposta “revolucionária” de Arida, não terá industriais. Não havia sindicalistas, ONGs, movimentos sociais, redes sociais, novos empreendedores, artistas, nova geração de tucaninhos para pegar o bastão da velha guarda, sequer havia classe média.


Apenas velhas lideranças políticas e ex-intelectuais em uma sessão nostalgia.


Nessa aridez de ideias, o discurso dominante resumiu-se à guerra contra a corrupção – como se o partido estivesse fora do jogo do financiamento partidário."

link: http://www.cartacapital.com.br/economia/o-psdb-limitando-se-a-cumprir-ta...


4) Weden - "Renovação de quadros: Os tucanos, com exceção do grupo de Serra, não foram atingidos em sua totalidade Aliás, a grande maioria passou ilesa pelo livro".

R - Não passou, não, pois as irregularidades estão diretamente relacionadas com o programa de privatizações do governo FHC, que foi a sua 'grande realização'. E se outros líderes importantes do partido não aparecem nas páginas do livro do Amaury, é porque o mesmo se concentrou em investigar as irregularidades que estavam, de alguma forma, relacionadas apenas com Serra.

Fico imaginando o que não apareceria no livro se o Amaury tivesse ampliado o seu leque e investigados o envolvimento das outras lideranças do partido no programa de privatizações. Entre outras consequências, o livro teria muito mais páginas e seria bem mais caro...

E quais são esses novos quadros do PSDB que podem surgir? Bruno Covas, que mal consegue se explicar a respeito do seu envolvimento com o escândalo das emendas parlamentares? Ou o líder da juventude tucana de Santo André, que fez comentários grosseiros, estúpidos e agressivos sobre o presidente Lula quando foi divulgada a notícia sobre a doença deste?

Não existem, de fato, quadros ou lideranças novas no PSDB que façam um discurso ou que tenha uma postura diferente do das lideranças tradicionais. Eles repetem o mesmo comportamento e o mesmo discurso dos caciques do partido. Os dois casos que comentei comprovam isso.

E quem manda e desmanda no PSDB são os mesmos de sempre: FHC, Alckmin, Serra, Aécio, Álvaro Dias, Beto Richa, Marconi Perillo e por aí vai...

Quais são, afinal, as novas lideranças do PSDB? Não existem.

5) Weden - "O PSDB tem toda a chance de usar estes dois momentos infelizes do governo passado como exemplo de que, se alguém inventou o caldo da privataria, muita gente além dele lambeu os beiços.".

R - A única chance do PSDB seria PROVAR que o Amaury mentiu, distorceu fatos e fez acusações desprovidas de provas contra Serra e seus amigos, parentes e aliados. Fora isso, não há como o PSDB tentar transferir a responsabilidade pela privataria do governo FHC para Lula, Dilma ou para o PT, pois não foram estes que a promoveram, mas os tucanos.

Lula e o PT podem até dever explicações por outros fatos (como o tal do 'mensalão'). Pelas privatizações do governo FHC, não.

Quem pariu Mateus, que o embale. E quem fez as privatizações, que se explique para o povo brasileiro.


Resumindo: o PSDB é um partido decadente que somente sobrevive graças a estados como SP, MG, GO, PR, os quais governa. Mas ele não tem uma liderança nacional que unifique o partido. O PSDB não tem um Lula. E também não tem um programa viável, política e eleitoralmente, que atraia a maioria do eleitorado. E para tentar conseguir voltar ao poder, o PSDB dependerá que ocorra uma crise de proporções biblícas, que destrua com o governo Dilma.

Ao PSDB restou apenas manter a sua aliança com a Grande Mídia e apostar no caos. Mais nada. Fora isso, a tendência do PSDB está definida: uma longa decadência, que levará a um progressivo enfraquecimento do partido, até que chegará o dia em que perderá os seus únicos baluartes, que são SP, MG, GO e PR. Daí, poderemos providenciar o enterro desse partido, que prometia construir algo de positivo para o país, mas que cumpriu tão pouco.

Assim, entendo que o PSDB está mais próximo de ser 'reafundado' do que 'refundado'.

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