segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Alemanha forte impede o crescimento das economias mais fracas da zona do Euro! - por Marcos Doniseti!

Alemanha forte impede o crescimento das economias mais fracas da zona do Euro! - por Marcos Doniseti!


A notícia que publiquei no blog 'Guerrilheiro do Entardecer' (link:http://guerrilheirodoentardecer.blogspot.com/2012/01/alemanha-com-novo-recorde-de-emprego.html), sobre o fato da Alemanha estar criando muitos novos empregos, enquanto as economias dos países mais fracos da zona do Euro afundam em uma crise terrível, que é a pior desde a Grande Depressão dos anos 1930, ilustra bem o caráter contraditório do processo de integração européia, principalmente depois da criação do Euro.

Assim, enquanto a Alemanha bate recorde na geração de empregos, outros países da zona do Euro batem recordes de desemprego. Isso não é coincidência. Um fato está diretamente relacionado ao outro. Como?

Acontece que a Alemanha tem uma economia muito mais forte e competitiva do que Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha (obs: são os chamados PIIGS... Só para lembrar: Espanha, na língua inglesa, chama-se Spain... daí o termo PIIGS). 

E como eles adotam a mesma moeda, a força da competitividade da economia alemã sufoca e impede o crescimento das economias mais fracas, pois os produtores e exportadores dos PIIGS tem que competir com os seus semelhantes da Alemanha. É claro que os alemães ganham, fácil, essa competição e a sua economia cresce muito mais e gera muito mais empregos do que as das economias mais fracas da zona do Euro, que ficam estagnadas ou entram em recessão e, logo, não conseguem gerar empregos.

Tanto isso é verdade que os países da UE que não adotaram o Euro, conseguem crescer e gerar empregos mesmo tendo economias mais fracas do que as da Alemanha, pois eles preservaram a sua moeda e, logo, mantiveram intacta a possibilidade de mudar o valor da mesma, promovendo desvalorizações que aumentam a competitividade das suas exportações. Com isso, eles continuam crescendo e gerando empregos. 

A verdade é que a UE cometeu um grande erro ao permitir que países com economias muito frágeis, como são as dos PIIGS, adotassem o Euro. 

O Euro é uma moeda muito valorizada (das principais moedas, somente a Libra vale mais do que ela) e somente deveria ser utilizada por países realmente ricos, com economias bastante competitivas globalmente, o que não acontece com os PIIGS. 

Permitir que os PIIGS adotassem o Euro foi como colocar times de 2a. ou 3a. divisão para disputar o campeonato da 1a. divisão. É claro que estes clubes, tecnicamente inferiores, iriam virar saco de pancada dos times mais fortes da 1a. divisão.

Logo, como as suas economias não tinham como competir com as dos países mais desenvolvidos da zona do Euro (Alemanha e França, principalmente) os PIIGS tiveram que se endividar fortemente para poder continuar crescendo.


Isso aconteceu porque as regras rígidas de controle do déficit público e da dívida pública, que foram adotadas quando da criação da moeda única (e que impôs o limite de 3% do PIB para o déficit público e de 60% do PIB para a dívida pública) impediram que os PIIGS recorressem a fontes de financiamento originárias do setor público europeu, como acontecia antes da criaçãõ do Euro (obs: a UE tem um fundo de investimento a fundo perdido cujos recursos são usados em investimentos nos países mais pobres do bloco... mas com a criação do Euro e das regras de controle dos gastos públicos, o mesmo foi esvaziado). 

Sem acesso a fundos públicos, os PIIGS recorreram aos financiamentos privados junto aos bancos alemães e franceses, principalmente, para poder continuar crescendo. Com isso, suas dívidas públicas cresceram significativamente.

E a crise financeira de 2008-2009, que provocou a falência de inúmeros bancos privados nos países desenvolvidos (EUA, UE) piorou ainda mais a situação, pois eles foram salvos pelo Estado. 

Esse salvamento, por sua vez, provocou um novo ciclo de endividamento dos Estados e as economias mais pobres da UE não aguentaram o tranco e acabaram, literalmente, quebrando.  


Foi isso que aconteceu com os PIIGS, cujas economias não são, de fato, suficientemente fortes e desenvolvidas para adotar o Euro.

Agora, a crise destes países ameaça a sobrevivência da própria zona do Euro, o que levaria à falência do sistema financeiro europeu, pois os maiores credores dos PIIGS são os bancos alemães e franceses, como acabei de afirmar aqui. 

Assim, se os PIIGS decretarem moratória, o sistema financeiro europeu irá para o buraco. Mas, não são apenas os bancos europeus que estão correndo riscos. Os bancos dos EUA também estão expostos à crise européia em um valor de US$ 2,7 trilhões (ver link abaixo).

Assim, a quebra do sistema financeiro europeu provocaria a falência do sistema financeiro dos EUA. Isso, acabaria jogando a economia mundial numa crise terrível, podendo até provocar uma nova Grande Depressão, tão forte quando a da década de 1930.

Desta maneira, a UE tem uma tarefa gigantesca pela frente nos próximos anos, que é a de salvar os PIIGS, restabelecendo a competitividade das suas economias, sem que isso gere o colapso da zona do Euro e do seu sistema financeiro. 

As medidas adotadas pelos governantes mais poderosos da zona do Euro (principalmente, por parte da dupla Angela Merkel e Sarkozy), até o momento, privilegiam, de forma clara, os interesses do sistema financeiro e jogam a responsabilidade pelo salvamento do Euro nas costas, e principalmente nos bolsos, dos trabalhadores europeus, que passam a sofrer, cada vez mais, com um desemprego elevado e crescente, eliminação de direitos trabalhistas, aumento da jornada de trabalho, forte aumento dos impostos, diminuição dos gastos sociais públicos e redução de salários.



Este receituário, puramente neoliberal, agrava ainda mais a crise econômica e social, pois diminui o poder de compra da população e não resolve o problema das contas públicas e nem do déficit externo dos PIIGS. E essas 'soluções' também intensificam os conflitos políticos-sociais na UE, tal como se observa, atualmente, com os movimentos dos Indignados, a revolta juvenil no Reino Unido, as greves gerais em países como Portugal, Grécia e Itália. 

Outra consequência da crise é o fortalecimento dos grupos de extrema-direita, que pregam o racismo e a xenofobia, como se a expulsão dos estrangeiros, legais ou ilegais, que vivem na UE fosse resolver alguma coisa.

Neste cenário, não será nada fácil encontrar soluções reais (que não se limitem, portanto, apenas e tão somente a empurrar o problema com a barriga) para essa situação dramática vivenciada pela zona do Euro e não há nenhuma garantia, de fato, de que as medidas anunciadas pelos líderes europeus sejam, ou serão, suficientes para resolver esta crise.

Logo, grandes emoções nos aguardam para os próximos anos.  

Links:

As regras para a criação do Euro:

http://envolverde.com.br/economia/o-inverno-europeu/

Alemanha bate recorde na criação de empregos:

http://economia.publico.pt/noticia/alemanha-com-novo-recorde-de-emprego-1527216

Para 36% dos alemães, o Euro fracassou:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/18897/para+36%25+dos+alemaes+o+euro+fracassou+como+moeda+comum.shtml

Paulo Nogueira Batista Jr.: Zona do Euro corre o risco de quebrar em 2012:

http://guerrilheirodoentardecer.blogspot.com/2011/12/paulo-nogueira-batista-jr-zona-do-euro.html

Exposição dos bancos dos EUA à zona do Euro chega a US$ 2,7 trilhões:

http://www.horadopovo.com.br/2011/10Out/3000-12-10-2011/P7/pag7c.htm

Moniz Bandeira e a crise do sistema financeiro:


http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,veto-na-ue-isola-reino-unido-e-atende-a-city-londrina,814337,0.htm

Crise mundial - alguns cenários:


http://www.esquerda.net/artigo/crise-mundial-alguns-cen%C3%A1rios

 

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