terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Cuba, a OEA e as forças democráticas e progressistas da América Latina! - por Marcos Doniseti!

Cuba, a OEA e as forças democráticas e progressistas da América Latina! - por Marcos Doniseti! 

(texto publicado originalmente no blog Guerrilheiro do Entardecer no dia 07/06/2009; revisto e atualizado no dia 25/09/2011)



Cuba, a OEA e as forças democráticas e progressistas da América Latina! - por Marcos Doniseti! (revisto e atualizado no dia 25/09/2011)

Entendo que a Revolução Cubana não foi, de fato, Socialista, mas uma Revolução de Libertação Nacional, que visava tornar o país efetivamente independente, visto que os EUA haviam imposto a sua vontade ao povo cubano depois que interferiram na Guerra de Independência de 1898, travada pelos cubanos contra a Espanha.

Os EUA construíram a base naval em Guantánamo e impuseram a Emenda Platt, que foi revogada apenas em 1933 quando o Roosevelt adotou a política de 'Boa Vizinhança' com a América Latina.

Para quem não sabe, a 'Emenda Platt' foi elaborada por um Senador dos EUA, foi inserida na Constituição de Cuba e concedia o direito dos EUA invadir Cuba quando bem entendesse e sempre que os seus interesses fossem contrariados.

Desta maneira, devido ao maciço intervencionismo dos EUA sobre a Ilha caribenha, a verdadeira Independência de Cuba foi adiada.

O país, de fato, se transformou num protetorado estadunidense, o que frustrou inúmeros nacionalistas cubanos que, durante boa parte do século XIX, haviam lutado, heroicamente, pela Independência do país, principalmente o grande líder político e intelectual José Martí que sempre exerceu uma grande influência sobre a vida e o pensamento de Fidel Castro. Fidel sempre foi muito mais um 'martinista' do que um 'marxista'.



O segundo objetivo da Revolução Cubana de 1959 era implantar uma Democracia na Ilha, restaurando a Constituição de 1940, a mais democrática da sua história até então. E o Movimento 26 de Julho foi criado justamente para isso.

E o terceiro objetivo era investir fortemente na área social, principalmente em Saúde, Educação e fazer a Reforma Agrária que, aliás, começou a ser feita nos territórios liberados pela Guerrilha, liderada por Fidel Castro, antes mesmo que a mesma conseguisse derrotar e derrubar a ditadura de Fulgêncio Batista.

Dos três objetivos, dois foram alcançados: tornar Cuba um país independente e fazer as reformas sociais.

Mas, o sonho do povo cubano de fazer do seu país uma nação democrática teve que ser adiado devido às agressões e ataques promovidos pelos EUA: a Invasão da Playa Girón e a 'Operação Moongoose' (de atentados terroristas, sabotagens contra a economia cubana, assassinatos de líderes da Revolução, etc), ambas comandadas pela CIA, bem como o Bloqueio Econômico imposto pelos EUA, inviabilizaram a transformação de Cuba numa nação democrática.

Todas essas agressões dos EUA à Ilha caribenha obrigaram o governo cubano a tomar medidas no sentido de reforçar o seu poder e autoridade sobre toda a sociedade e em buscar apoio da URSS (político-econômico-militar), o que foi feito para poder resistir às agressões e ao Bloqueio do Império Ianque contra o pequeno país centro-americano.



Assim, Cuba acabou implantando um Regime de natureza Socialista, com várias das características existentes na então URSS, como o o regime de partído único, a imprensa controlada pelo Estado e uma maior burocratização da economia e da sociedade cubanas.

A adoção de um regime com muitas das características do 'Socialismo Real' foi o preço que os cubanos tiveram que pagar para preservar a sua indepedência e garantir a realização das reformas sociais e se livrar da hegemonia dos EUA, pois estes, agindo como um típico Império agressivo e militarista, faziam de tudo para impedir que tais avanços pudessem acontecer na Ilha caribenha, com medo de que o exemplo de luta do povo cubano se espalhasse por toda a América Latina e que outras nações da região decidissem lutar para alcançar as mesmas metas e objetivos do governo comandado por Fidel Castro.



E foi para impedir isso que o governo dos EUA corrompeu inúmeros governos latino-americanos da época, subornando-os de forma descarada. Os que não se deixaram corromper acabaram derrubados por Golpes de Estado financiados e patrocinados pelos EUA (tal como ocorreu com o presidente trabalhista João Goulart, no Brasil, que se recusou a romper relações com o governo de Fidel Castro, mesmo tendo sofrido fortissímas pressões do governo ianque neste sentid) e praticamente obrigaram tais nações a romper relações diplomáticas com Cuba e a expulsar o país da OEA.

Como a OEA era, na época, uma organização fantoche dos EUA para manter a sua hegemonia sobre toda a América Latina, que os estadunidenses viam apenas como sendo um mero 'quintal' que lhes pertencia e onde podiam fazer o que quisessem e na hora em que bem entendessem, não foi difícil para os EUA conseguir isolar Cuba dos demais países latino-americanos.

Dentre os países da América Latina, o único que não rompeu relações com a Ilha caribenha foi o do México, já que o governo de João Goulart acabou derrubado por um Golpe de Estado pró-EUA.

Depois, o Brasil rompeu relações com Cuba, mas isso ocorreu apenas no governo ditatorial de Castelo Branco, que foi totalmente submisso aos interesses estadunidenses e que chegou até a enviar soldados para intervir na República Dominicana, cujo povo havia ousado eleger um presidente esquerdista, Juan Bosch, em uma eleição livre e democrática. Esta foi a época em que 'O que é bom para os EUA é bom para o Brasil'.



O México possuía, naquela época, toda uma tradição de política, interna e externa, mais independente em relação aos EUA permitindo que, inclusive, membros de movimentos e partidos de Esquerda da América Latina, e de outros países e continentes, buscassem refúgio e asilo em território mexicano. Foi para lá, por exemplo, que se dirigiram os raptores brasileiros do embaixador dos EUA no Brasil, Charles Elbrick, em 1969.

Agora, o retorno de Cuba à OEA marca o fracasso da política dos EUA de derrubar o governo cubano, através do Bloqueio e do isolamento diplomático, econômico, comercial à que a pequena Ilha caribenha foi submetida pelo Império Ianque, e de impedir que o exemplo de luta do povo cubano fosse seguido por outras nações e povos latino-americanos.

Além do fato do governo cubano não ter sido derrubado pelos EUA, inúmeros países e povos da região vem optando, na última década (desde a vitória de Hugo Chávez na eleição presidencial de 1998, na Venezuela), pela eleição direta de governantes de Esquerda e de Centro-Esquerda, que promoveram reformas políticas, econômicas e sociais em seus países que alcançaram ótimos resultados, promovendo-se melhorias significativas nas condições de vida da população, como é o caso de Lula e Dilma (Brasil), Evo Morales (Bolívia), Rafael Corrêa (Equador), Nestor e Cristina Kirchner (Argentina), Ricardo Lagos e Michele Bachelet (Chile), Tabaré Vasquez e, agora, o ex-guerrilheiro tupamaro José Mujica, (Uruguai), Fernando Lugo (Paraguai), Daniel Ortega (Nicarágua), Alvaro Colom (Guatemala; neste país houve um retrocesso, com a Direita voltando a governar o país, infelizmente), Maurício Funes (El Salvador) e Ollanta Humala (Peru).

Tais vitórias das forças de Esquerda e Centro-Esquerda, reformistas e progressistas, cujos líderes e integrantes são, em grande parte, admiradores da luta do povo cubano, em todos estes países latino-americanos, criaram uma nova realidade política na região e obrigaram o governo Obama a reconhecer a legitimidade de tais forças políticas e sociais, bem como em iniciar um processo pautado pelo diálogo com as mesmas, em vez de tentar impor a visão e os interesses dos EUA sobre os povos e países da América Latina, que era a política do governo neo-fascista, genocida, assassino e terrorista de George Bush.

Agora, com o retorno de Cuba à OEA e uma política de diálogo adotada pelo governo Obama, abre-se o caminho para a realização de reformais políticas, econômicas e sociais que reduzam substancialmente as gigantescas desigualdades sociais vigentes na América Latina, visto que esta tem as maiores desigualdades sociais do planeta e na qual ainda vivem um número imenso de pessoas, cerca de 40% da população total, na pobreza e na miséria.

Problemas há muito tempo superados em outros países e regiões, como o analfabetismo, a fome, a miséria, o subemprego, as gigantescas desigualdades sociais, ainda marcam a América Latina.

E não será com políticas neoliberais excludentes e elitistas que a região irá superar tais mazelas, mas com políticas de inclusão social, política, econômica e cultural das numerosas massas latino-americanas aos frutos do progresso, da democracia e do desenvolvimento econômico.

O fato de que os governos progressistas eleitos na última década, citados aqui, tenham iniciado um processo de reversão das políticas neoliberais fracassadas dos anos 1980/1990 e conseguido reduzir a pobreza e as desigualdades sociais de maneira significativa (como um estudo da CEPAL demonstrou claramente), provam que não existe outra alternativa para os povos da América Latina que não seja o de aprofundar o seu processo, ainda parcial e embrionário, de integração política, econômica e social e de aprofundar as reformas iniciadas por estes governos progressistas, aos quais a Grande Mídia reacionária, troglodita, golpista, entreguista e neo-fascista da região ataca de forma bastante violenta.



Não importa o que veículos de comunicação francamente reacionários, entreguistas e elitistas (como a 'Veja', 'Folha', 'Estadão', 'Globo', e que pertencem a meia-dúzia de famílias com visão política elitista, retrógrada e anti-popular) digam: as reformas implantadas pelos governos mais populares e progressistas de 1999 para cá, em um número cada vez maior de países latino-americanos, têm que ser aprofundadas nas próximas décadas.

Fora disso, o caos e as trevas triunfarão por toda a América Latina.

E a reintegração de Cuba à OEA é simbólica, mostrando que mesmo com a América Latina tendo sido, tantas vezes, invadida, atacada, conquistada e saqueada pelas potências coloniais e neo-colonias capitalistas e imperialistas, existem, sim, condições de resistir e lutar pela criação de nações mais justas, democráticas, fraternas e solidárias.

É como disse o eterno e imortal Comandante Ernesto Che Guevara:

"Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais conseguirão deter a primavera inteira.".

Obs: Como se percebeu posteriormente, o governo Obama avançou muito pouco, infelizmente, nas suas relações com o governo de Cuba. Até o governo de Bill Clinton promoveu um diálogo muito mais forte e, na prática, chegou a reatar relações com Cuba, através da abertura de 'Escritórios de Representação' (um eufemismo para Embaixadas) dos dois países, em Washington e em Havana, respectivamente.

Não é à toa que Obama está com uma popularidade tão baixa. A esperança de mudança que ele despertou, dentro e fora dos EUA, não se confirmou, infelizmente. 

Quanto ao Chile, embora a Concertácion tenha sido derrotada pela Direita na eleição presidencial de 2010, o governo de Piñera enfrenta sérias dificuldades e tem uma aprovação popular de apenas 26%, segundo os números mais recentes. Com isso, não é se duvidar que os Socialistas e a Democracia Cristã, renovados com novas lideranças e propostas de maior intervenção estatal na economia e na área social, em especial, voltem a governar o Chile num futuro bem próximo.

Links:

A CIA e a invasão da Baía dos Porcos:

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,cia-libera-documentos-sobre-invasao-da-baia-dos-porcos-em-cuba,758906,0.htm

A Base Naval de Guantánamo:

http://the-rioblog.blogspot.com/2011/06/historia-da-base-naval-de-guantanamo-em.html

Invasão da Baía dos Porcos e a Emenda Platt:

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-73292008000100006

Emenda Platt e a História de Cuba:

http://www.historiamais.com/revolucaocubana.htm

O governo de Chávez e a redução da pobreza na Venezuela:

http://www.patrialatina.com.br/editorias.php?idprog=d41d8cd98f00b204e9800998ecf8427e&cod=9209

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