sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A Doutrina Obama e a decadência dos EUA! - por Marcos Doniseti!

A Doutrina Obama e a decadência dos EUA! - por Marcos Doniseti!





Já há um certo período de tempo que muitos se perguntam se, afinal, os EUA estariam vivendo um processo de decadência. A minha resposta para essa questão é positiva e por vários motivos: crise econômica e social gravíssimas, estagnação econômica, virtual falência do Estado ianque, fortemente endividado, uma elevada taxa de desemprego, entre outros.

Agora, o presidente Barack Obama anuncia uma nova estratégia de segurança nacional, a fim de tentar preservar o poder e a influência dos EUA no mundo.

Mesmo que, no discurso em que anunciou a 'Doutrina Obama', o presidente dos EUA tenha dito que o país continuará forte, influente e poderoso, o fato concreto é que a nova política é uma necessidade imposta pela grave crise econômica que os EUA enfrentam desde 2008.

Tanto que a principal característica do novo plano é o corte de gastos. Em função de acordos fechados entre Democratas e Republicanos em 2011, o Pentágono terá que cortar fortemente os seus gastos em US$ 1,1 trilhão nos próximos dez anos. 

Assim, a nova estratégia de segurança dos EUA responde a essa imposição. O fato é que a fonte de dinheiro secou. Os EUA não são mais tão ricos a ponto de poder gastar, anualmente, como acontece atualmente, US$ 1,5 trilhão em guerras e na área militar. Sozinhos, os EUA gastam o equivalente a 43% de todos os gastos militares mundiais e seu orçamento é maior do que os dos outros 10 países que mais gastam no setor.

Esta situação tornou-se absolutamente insustentável e por dois motivos principais: a crise econômica-financeira que atingiu fortemente os EUA a partir de 2008 e a incapacidade do país de vencer as duas guerras em grande escala que travou a partir de 2001, no Iraque e no Afeganistão.


Tal crise teve, como uma de suas principais consequências, a virtual falência do Estado ianque, com uma dívida pública e um déficit público gigantescos e que cresceram fortemente nos últimos anos. A dívida pública está em 150% do PIB (somando as 3 esferas de governo: federal, estadual e municipal) e o déficit público chega a 9% do PIB. Tanto um como o outro são absolutamente insustentáveis e precisam começar a ser reduzidos e o quanto antes. Daí, a necessidade de cortes drásticos na área militar, que é uma das que mais pressiona o Orçamento do Estado ianque.

E a taxa de desemprego, de 9%, também é um outro fator que contribui para o aumento da pobreza e da miséria nos EUA, que atingiu o maior patamar da história, superando os 15% da população. Os salários estão diminuindo, perdendo cada vez mais o seu poder de compra, e um grande número de famílias perdeu as suas casas, devido às dívidas acumuladas para comprá-las e que, agora, com a crise, não tem como pagá-las. Muitas delas foram morar em trailer ou, até, em automóveis.

Esse processo de rápido empobrecimento de um número cada vez maior de americanos representa uma séria ameaça, por sua vez, à tentativa do presidente Obama de tentar se reeleger na próxima eleição, em Novembro deste ano.

Como resultado da crise econômica e social cada vez mais grave, as guerras e os gigantescos gastos militares tornaram-se altamente impopulares e, com isso, não sobrou para os dois partidos, Democrata e Republicano, outra alternativa que não fosse a de cortar os elevadíssimos gastos armamentistas.

Portanto, não adianta Obama vir dizer que a nova estratégia mantém o poder e a influência dos EUA no mundo no mesmo patamar porque isso não corresponde à realidade. Inclusive, o presidente do Grande Irmão do Norte deixou bem claro que os EUA não tem mais condições de travar duas guerras em grande escala de forma simultânea, tal como aconteceu durante a primeira década do século 21, no Iraque e no Afeganistão.

Como a nova estratégia de segurança, a presença militar dos EUA, pelo mundo agora, irá diminuir, sim, e de maneira significativa.

Até porque, como se pode perceber pelo gráfico que publiquei aqui neste texto (retirado do site do jornal britânico 'The Independent': http://www.independent.co.uk/incoming/article6285681.ece), haverá uma redução significativa no efetivo militar total das Forças Armadas dos EUA, que diminuirão em 490 mil soldados, caindo de 1,569 milhão para 1,079 milhão entre 2012-2022.

Mesmo que os EUA tentem manter seu poder e influência no mundo totalmente intactos, o fato concreto é que isso ficará bem mais difícil, devido à diminuição do poderio militar do país que, a partir de agora, irá priorizar a região da Ásia-Pacífico.

No caso da Europa, o recado de Obama foi claro: se virem. É como se Obama tivesse dito, para os europeus: 'Agora, vocês terão que resolver seus problemas de segurança com seus próprios recursos, pois não temos mais condições de sustentar os seus esforços e gastos militares'.

Na América Latina, os EUA também irão reduzir o seu intervencionismo, o que abre caminho para que os países da região aprofundem e intensifiquem o seu processo de integração, através do Mercosul, Unasul, Alba e Celac, em especial.


Será interessante observar, inclusive, como as forças conservadoras da América Latina irão reagir a esta nova política adotada pelos EUA. Antes, quando promoviam Golpes de Estado (ex: casos do Brasil em 1964, Chile em 1973 e Argentina em 1976) ou iniciavam guerras civis (como ocorreu na Nicarágua e em El Salvador na década de 1980) as forças políticas-sociais mais reacionárias da região sempre contavam com o apoio total e decisivo dos EUA. Agora, tudo indica, que isso não mais irá acontecer.

Aliás, essa política adotada pelo governo Obama lembra a decadência que atingiu os antigos Império Britânico e Francês depois da 2a. Guerra Mundial. Os dois Impérios, cada vez mais enfraquecidos, deixaram claro aos EUA que não teriam mais condições de manter seus esforços militares pelo mundo e que caberia à nova superportência, os EUA, assumir o lugar deles.

Desta maneira, foi assim que os EUA começaram a interferir cada vez mais em guerras e conflitos pelo mundo, tal como ocorreu na Grécia (onde os EUA substituíram os britânicos como potência ocidental mais influente) e na Indochina, região na qual a França não conseguia mais manter sob o seu controle, abrindo espaço para a crescente atuação dos EUA na área, provocando a tragédia da Guerra do Vietnã e que se transformou na Guerra da Indochina, pois a intervenção ianque também atingiu o Laos e o Camboja.

Agora, são os EUA que se retiram de algumas regiões do planeta, pela absoluta incapacidade econômica-financeira de sustentar uma presença militar global tão gigantesca e apelam para a ajuda e uma maior participação de países aliados, como os da OTAN, por exemplo. Aliás, tal estratégia já foi colocada em prática em 2011, no caso da Guerra da Líbia, na qual a França e a Grã-Bretanha assumiram a liderança, com os EUA agindo mais nos bastidores, na guerra para derrubar Khadafi.

Também tivemos, na Guerra da Líbia, uma significativa participação dos países muçulmanos mais obscurantistas da região do Golfo, principalmente da Arábia Saudita e do Qatar. O jornalista Pepe Escobar revelou, no 1o. Encontro Mundial de Blogueiros, que as Forças Especiais do Qatar é que treinaram grande parte dos 'guerrilheiros' líbios que lutaram contra o ditador líbio e que esse pequeno país do Golfo está interferindo cada vez mais em países árabes e muçulmanos, tanto na Ásia, como na África.

Portanto, já em 2011, o governo de Obama começou a colocar em prática essa política de intervenção baseada em acordos com países aliados, com estes tendo um papel muito mais intenso e ativo do que antigamente.

Além de tudo, outro fator que contribuiu para que os EUA adotassem essa nova Doutrina de Segurança, foi o fracasso do grande Império Ianque em vencer as guerras do Iraque e do Afeganistão.


Os EUA gastaram vários trilhões de dólares (o Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz diz que somente a Guerra do Iraque custou mais de US$ 3 trilhões) e não conseguiram, de fato, vencer nenhuma das duas guerras, que travaram por cerca de 10 anos, cada uma delas.

Nem mesmo o emprego de centenas de milhares de soldados por parte dos EUA (160 mil no Iraque, no auge do conflito, e cerca de 90 mil no Afeganistão, além de um número imenso de mercenários, que chegaram a 180 mil no Iraque) e de armamentos altamente sofisticados (como o Stealth, avião invisível, os drones, etc), e que foram desenvolvidos nas últimas décadas (ao custo de centenas de bilhões de dólares) justamente para diminuir o número de soldados em combate e, assim, baixar o número de número de mortos e feridos nas guerras, fez a diferença e levou os EUA à vitória em duas guerras travadas contra forças militares muito inferiores.

No caso do Iraque, por exemplo, os EUA não conseguiram vencer uma guerra contra um país que foi devastado por duas guerras (contra o Irã - entre 1980-1988- e a 1a. Guerra do Golfo, contra os EUA, em 1991) e no caso do Afeganistão a terra de Tio Sam revelou-se incapaz de derrotar o Taleban, que é um grupo guerrilheiro formado por estudantes determinados a lutar contra todo e qualquer invasor do seu país e que já tinha acumulado muita experiência no combate à URSS, quando esta também invadiu o país da Ásia Central em Dezembro de 1979 e que também foi derrotada, saindo melancolicamente das terras afegãs em  10 anos depois, em 1989.

Com o fracasso das guerras do Iraque e do Afeganistão, a chamada 'Guerra Infinita', iniciadas pelo governo de George Bush Jr, e cujos planos originais previam a 'necessidade' de intervir diretamente em cerca de 60 países, que eram considerados (pelo Império Ianque) como sendo 'párias' ou 'bandidos' e que, de uma forma ou de outra, segundo o criminoso presidente dos EUA, apoiavam ou eram coniventes com o 'terrorismo internacional', tiveram que ser abandonados.

Foi somente em função do fracasso nestas duas guerras, Iraque e Afeganistão, que os EUA ficaram impossibilitados de invadir os 60 países que faziam parte da lista de Bush Jr.

Senão...

Alguns dos países que não foram diretamente invadidos pelos EUA sofrearam, no entanto, com tentativas de Golpes de Estado.

Na América Latina, por exemplo, tivemos vários Golpes na primeira década do século XXI e que contaram, todos eles, com apoio e a participação ativa do governo ianque: Venezuela em 2002, Bolívia em 2008, Equador em 2010.

Porém, apenas em Honduras (que é, já há muito tempo, uma base militar avançada dos EUA e da qual saíra, por exemplo, os mercenários cubanos treinados pela CIA e que invadiram Cuba em 1961), em 2009, é que um Golpe de Estado, na América Latina, que contou com o apoio do governo dos EUA, foi vitorioso e resultou na implantação de uma Ditadura Militar que fez com que o Estado hondurenho passasse para o controle do crime organizado.


















Portanto, foi a luta e a resistência dos povos, pelo mundo afora, contra a política imperialista e expansionista dos EUA, expressa na idéia de 'Guerra Infinita', e a gravíssima crise econômica e social que atingiu o país, especialmente depois de 2008, que inviabilizaram a continuidade deste projeto que, na prática, deu início à Terceira Guerra Mundial, já que ela envolvia a maior potência mundial contra povos e nações de, virtualmente, todos os continentes.

Felizmente, o Império Ianque está enfraquecido e, logo, a sua capacidade de intervir militarmente e de atacar qualquer país cujo povo e governo não se submetam à sua vontade, diminuiu.

Porém, o Império não morreu e continuará tentando levar adiante uma política de submissão e de ataques contra qualquer país que não abaixe a cabeça para ele. Mas as mudanças na estratégia dos EUA mostra que é possível lutar, resistir, vencer e enfraquecer o Império Ianque, obrigando-o a rever seriamente as suas políticas.

Portanto, A Luta Continua!

Links:

Obama anuncia corte de gastos militares nos EUA:

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,obama-anuncia-corte-de-us-450-bilhoes-em-orcamento-militar,819050,0.htm

Pobreza extrema atinge 1 em cada 15 pessoas nos EUA:

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,pobreza-extrema-atinge-1-em-cada-15-pessoas-nos-eua,794192,0.htm

Obama anuncia Exército mais enxuto, com ênfase na Ásia:

http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/obama-anuncia-exercito-mais-enxuto-e-barato-com-enfase-na-asia/n1597520405568.html

Guerras sem vencedor; EUA sem influência:

http://www.outraspalavras.net/2011/12/13/guerras-sem-vencedor-eua-sem-influencia/

Últimas tropas dos EUA deixam o Iraque:


http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/ultimas-tropas-dos-eua-deixam-o-iraque/n1597415183401.html

EUA começam a se retirar do Afeganistão:

http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/apos-dez-anos-da-guerra-do-afeganistao-eua-buscam-saida-honrosa/n1597260160774.html

Poderio militar dos EUA é o precursor de sua influência global:


http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,poderio-americano-e-o-precursor-de-sua-influencia-global-,819117,0.htm

A Doutrina Obama - por Spencer Ackerman:

http://guerrilheirodoentardecer.blogspot.com/2012/01/o-novo-plano-de-defesa-de-obama-drones.html

Guerra do Iraque custa mais de US$ 3 trilhões, diz Joseph Stiglitz:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/02/080225_stiglitzlivroiraque_ba.shtml

Iraque - Retirada sem Glória:

http://www.esquerda.net/artigo/iraque-retirada-sem-gl%C3%B3ria

Guerras do Iraque e Afeganistão sugam Orçamento dos EUA, diz Amy Goodman:


http://www.esquerda.net/dossier/guerras-do-afeganist%C3%A3o-e-iraque-sugam-or%C3%A7amento-dos-eua

O cansaço da guerra nos EUA- por Immanuel Wallerstein:

http://www.esquerda.net/dossier/cansa%C3%A7o-da-guerra-nos-estados-unidos

Guerra Infinita de Bush previa intervenção em 60 países 'párias':

http://www.velhosamigos.com.br/Autores/LeonardoBoff/LeonadoBoff.html

Os EUA e o Golpe de Estado no Equador em 2010:


http://redecastorphoto.blogspot.com/2010/10/por-tras-do-golpe-no-equador.html

Evo Morales acusa EUA de promover Golpes na América Latina:

http://mais.uol.com.br/view/f4d5g8hwtbxo/evo-morales-acusa-eua-de-promover-golpes-na-america-latina-0402993272D4C94307?types=A&

Honduras: Após o Golpe de 2009, crime organizado passou a controlar o Estado:


http://guerrilheirodoentardecer.blogspot.com/2012/01/resultado-do-golpe-em-honduras-crime.html

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