sábado, 23 de junho de 2012

Luis Nassif, Collor, Lugo e os Golpes de Estado! - por Marcos Doniseti!

Luis Nassif, Collor, Lugo e os Golpes de Estado! - por Marcos Doniseti!



Em seu blog, o jornalista e economista Luís Nassif escreveu o seguinte:

"O presidente do Paraguai foi alvo de um golpe de Estado, assim como Fernando Collor, do Brasil e Andrés Perez, da Venezuela.".

Considero que essa comparação que o Nassif fez em seu texto é totalmente descabida e sem nenhuma fundamentação histórica.

Existem inúmeras diferenças nos processos de afastamento destes três governantes latino-americanos. E é justamente sobre elas que irei comentar agora.

Vamos lá, então.

Fernando Collor foi afastado após ter enfrentado uma das maiores campanhas populares da história brasileira, na qual milhões de brasileiros, de todas as classes sociais e de todas as regiões, saíram às ruas de todo o país exigindo o seu Impeachment.

Pesquisas feitas pouco antes do seu afastamento, pela Câmara dos Deputados, em 29 de Setembro de 1992, mostravam que o apoio ao seu governo não chegava sequer a 10%.

Pesquisa Datafolha feita no dia 01 de Junho de 1992 mostrou o seguinte resultado na avaliação popular do governo Collor:

Ótimo-Bom - 9%;
Regular - 21%;
Ruim-Péssimo - 68%.

Notem que essa pesquisa foi feita três meses antes da Câmara dos Deputados ter votado pelo afastamente de Collor da presidência e, com o desgaste que ele sofreu neste período de tempo, tudo indica que a sua popularidade era ainda menor e que a sua rejeição era muito maior do que em Junho.

Enquanto isso, o presidente legítimo e democraticamente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, possuía 58% de aprovação popular em Janeiro deste ano.

Aliás, essa popularidade elevada de Lugo explica porque não tivemos uma campanha popular exigindo o seu Impeachment. Porque o povo paraguaio iria exigir o afastamento de um presidente tão popular, cuja gestão ele aprova? Isso não tem lógica nenhuma.

O Golpe de Estado contra Lugo foi resultado, portanto, de um movimento restrito às elites do país (Igreja, Grande Mídia, Partidos Políticos e Latifundiários, em especial) e não contou com qualquer processo de mobilização popular.

Além disso, entre o afastamento da presidência e o seu julgamento pelo Senado paraguaios, passaram-se apenas algumas horas. Isso mostra, de forma nítida, que não houve respeito algum ao princípio (universal e democrático) de respeito ao Direito de Defesa.

Toda e qualquer pessoa, quando é submetida a um processo, mesmo que político (o que é o caso do Impeachment) tem o direito de se defender e, é claro, que ela precisa de bem mais do que de apenas algumas horas para articular e organizar a sua defesa.

Aliás, é justamente a elevada popularidade de Lugo (58% de aprovação em Janeiro deste ano) que explica porque ele foi julgado tão rapidamente, pois se o legítimo Presidente do Paraguai dispusesse de várias semanas ou meses para articular a sua defesa e mobilizar os setores da população que lhe dão sustentação política, é claro que ele poderia conseguir inviabilizar o Golpe de Estado que foi aplicado contra si.

Já o então presidente brasileiro, Fernando Collor, por sua vez, somente foi julgado pelo Senado brasileiro TRÊS MESES depois do seu afastamento pela Câmara dos Deputados. Logo, ele teve tempo de sobra para organizar a sua defesa e, até, mobilizar e organizar os setores sociais que, eventualmente, ainda defendessem a sua manutenção no cargo.

O fato concreto é o seguinte: Não existe processo de Impeachment justo e legítimo sem que se respeite o amplo Direito de Defesa. E no caso de Fernando Lugo, isso não foi respeitado! Logo, ocorreu um claro Golpe de Estado no Paraguai.





Quanto ao ex-presidente venezuelano, Carlos Andrés Perez, o seu caso é totalmente diferente do de Fernando Lugo e, logo, também não permite esse tipo de comparação, totalmente equivocada e descabida, que Luis Nassif fez.

Carlos Andrés Perez se elegeu presidente da Venezuela em 1989, usando um discuso nacionalista e reformista, dizendo que iria melhorar os salários e as condições de vida dos venezuelanos.

No entanto, logo depois de assumir o cargo ele colocou em prática uma política econômica de natureza neoliberal, adotando medidas que foram 'recomendadas' pelo FMI, como a redução dos subsídios dos alimentos e dos combustíveis, o que fez disparar os preços destes produtos essenciais para o povo venezuelano.

Tais medidas provocaram, tão logo foram adotadas, em Fevereiro de 1989, uma revolta popular que entrou para a história com o nome de 'Caracazo' e que foi violentamente reprimida pelo governo de Perez. Este ordenou aos militares (Polícia e Exército) que reprimissem duramente aos protestos populares.

Embora o seu governo tenha dito que morreram pouco mais de 300 pessoas, vítimas da brutal repressão promovida por ordens de Perez, há fontes independentes que dizem que o número real passou de 3000 mortos.

O resultado desse massacre foi a total desmoralização do governo de Perez, que havia acabado de tomar posse, e gerou duas tentativas de Golpe de Estado contra o seu governo (um deles foi liderado pelo então Tenente-Coronel Hugo Chávez, que acabou julgado, condenado e preso, mas que se tornou, após ser libertado, a maior liderança política e popular da Venezuela) e que contaram com ampla simpatia popular, tal era a impopularidade de C.A. Perez.

No ano de 1993, com o seu governo já totalmente desmoralizado e sofrendo com altíssimos níveis de rejeição popular, Perez foi acusado de envolvimento com corrupção e acabou tendo aprovado o seu processo de Impeachment, no qual o seu direito de defesa também foi devidamente respeitado e tudo se fez de acordo com as leis e com a Constituição do país .

Assim, não há como comparar essas três situações, tal como fez Nassif em seu comentário, que é totalmente equivocado, a meu ver.

O fato concreto é que o legítimo e constitucional presidente Fernando Lugo foi vítima de um Golpe de Estado.

 E fato de que os golpistas paraguaios tentem dar um 'ar de legalidade' ao Golpe contra Fernando Lugo não constitui nenhuma novidade. Isso acontece em quase todos os Golpes de Estado. 

Exemplo: Quando ocorreu o Golpe de Estado que derrubou João Goulart da Presidência da República, os golpistas tentaram dar esse mesmo 'ar de legalidade' para o fato, com o então presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, declarando 'vaga' a Presidência da República, porque supostamente o então presidente Goulart teria saído do território sem comunicar o fato ao Congresso Nacional, o que era uma mentira deslavada.

Então, essas tentativas, feitas por um bando de direitistas reacionários e golpistas (o que, definitivamente, não é o caso de Nassif) de tentar justificar os Golpes de Estado contra governantes de Esquerda e Nacionalistas-Reformistas que subiram ao poder através de vitórias eleitorais legítimas são totalmente patéticas e resultam da sua total e absoluta ignorância histórica.

Eles não sabem absolutamente nada sobre a história dos Golpes de Estado latino-americanos e todas as suas tentativas de justificá-los são apenas maneiras pela qual demonstram todo o seu reacionarismo estúpido e a sua ignorância abjeta a respeito da história da América Latina.

A todos eles, eu digo o mesmo: Vão estudar, cambada de fascistas analfabetos e de imbecis!


Os recentes Golpes de Estado em Honduras (2009) e no Paraguai (2012) mostram que a Direita latino-americana percebeu que não ganha mais eleições democráticas e abandonou a defesa da existência de regimes liberais-democráticas, passando a apelar para os Golpes de Estado a fim de manter os seus privilégios intactos.

Na América do Sul, por exemplo, a Direita foi derrotada em eleições presidenciais realizadas no Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia, Venezuela, Equador e Peru.

A direita troglodita e reacionária governa apenas na Colômbia (que é uma ditadura militar disfarçada) e no Chile. Mas, neste último, o governo Piñera está muito enfraquecido e Michele Bachelet é a favorita disparada para voltar a governar o país, segundo pesquisas.

Mesmo na América Central, um tradicional quintal dos EUA, desde as últimas décadas do século XIX, temos casos de governos progressistas na Nicarágua (governada por Daniel Ortega, da FSLN, recentemente reeleito) e em El Salvador (governado por Mauricio Funes, da FMLN). Sem falar de Cuba, é claro, que resiste desde 1959 às agressões e ao bloqueio promovido pelo Império Ianque.

Assim, a única maneira que os direitistas brucutus latino-americanos tem encontrado de chegar ao poder, nos últimos anos, é através de Golpes de Estado.

Outras tentativas golpistas organizadas pelas retrógradas e pré-históricas direitas latino-americanas foram levadas adiante, nos últimos anos, porém acabaram fracassando, na Venezuela (2002), Bolívia (2008) e Equador (2010)

Se quisermos preservar a democracia e a liberdade na América Latina, então o Golpe de Estado contra Fernando Lugo não pode ser vitorioso.

Até porque, se isso acontecer, a tal 'cláusula democrática' do Mercosul se transformará em letra morta e o caminho estará aberto para novas tentativas golpistas em toda a América Latina.


Portanto, os governos sul-americanos não podem hesitar e devem condenar o Golpe de Estado no Paraguai, deixando bem claro ao governo golpista-fascista que o mesmo não será reconhecido e que seu país pagará muito caro se não respeitar a vontade democrática do povo paraguaio, que foi quem elegeu Lugo e que somente este possui a necessária legitimidade para governar.


Até porque, dos dez países sul-americanos, sete possuem governos de Esquerda ou de Centro-Esquerda (Brasil, Argentina, Uruguai, Venezuela, Peru, Bolívia e Equador), se todos eles condenarem o Golpe no Paraguai e isolarem o país, então penso que há grandes chances de que o movimento golpista venha a fracassar.

Caso isso não seja feito, então é bom que Dilma, Cristina, Mujica, Chávez, Evo, Correa e Ollanta coloquem as barbas de molho, pois serão os próximos a enfrentar tentativas de Golpe de Estado.

Quem viver, verá!


No Pasarán!



Links:

Texto de Luis Nassif sobre Golpes de Estado:

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/paraguai-foi-golpe-de-estado-sim

Popularidade de Collor em Junho de 1992, segundo pesquisa Datafolha:

http://datafolha.folha.uol.com.br/po/ver_po.php?session=23

Aprovação de Fernando Lugo era de 58% em Janeiro de 2012:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/06/sem-apoio-lugo-tera-duas-horas-para-se-defender-de-impeachment.html

Auro de Moura Andrade declara vaga a Presidência da República:

http://www.youtube.com/watch?v=B-3Ng_eaG2I

Venezuelanos homenageiam os mortos do 'Caracazo':

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/882168-venezuela-homenageia-mortos-da-revolta-popular-el-caracazo.shtml

Fernando Lugo teve apenas duas horas para se defender de Impeachment:

http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2012-06-21/presidente-do-paraguai-tera-duas-horas-para-se-defender-de-impeachment.html



Caracazo: Para não esquecer!


http://economiasocialistads.blogspot.com.br/2009/02/caracazo-20-anos-para-nao-esquecer.html

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