sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Afinal, porque a rejeição a Serra cresceu tanto? - por Marcos Doniseti!

Afinal, porque a rejeição a Serra cresceu tanto? - por Marcos Doniseti!



Muito se tem escrito a respeito do rápido aumento da rejeição do candidato do PSDB, José Serra, à prefeitura de São Paulo. 

Entendo que há uma razão muito forte para que isso tenha acontecido e esta é a elevada desaprovação do governo Kassab. 

A mais recente pesquisa do Datafolha, divulgada no dia 30 de Agosto, mostra o prefeito de São Paulo como o mais impopular prefeito das capitais brasileiras, ao lado do prefeito do Recife (João da Costa, do PT, que teve a sua candidatura à reeleição vetada pelo partido). 

E na capital pernambucana o candidato petista à prefeitura (Humberto Costa, Senador e ex-ministro da Saúde do governo Lula) também enfrenta grandes dificuldades para conseguir vencer a eleição e está empatado com o candidato do PSB, Geraldo Júlio, apoiado pelo extremamente popular governador Eduardo Campos. Até outro dia Geraldo Júlio tinha cerca de 6% nas pesquisas.

Em São Paulo, segundo o Datafolha, Kassab tem apenas 24% de ótimo/bom, contra 36% de ruim/péssimo. 

Qual a razão dessa elevada desaprovação do governo Kassab?

Entendo que o motivo principal disso é que, neste segundo mandato, a cidade foi literalmente abandonada por Kassab. 

O prefeito paulistano (ex-vice de Serra e pelo qual foi apoiado quando se reelegeu) deu prioridade para a criação do seu partido, o PSD, e pouco tempo dedicou à gestão e ao governo da cidade.

E o resultado é que, neste segundo mandato, Kassab não fez NADA de relevante na cidade. 


E quando digo NADA, é NADA mesmo! Não se conhece uma única obra ou projeto significativo da prefeitura paulistana que tenha sido desenvolvido neste segundo mandato. No primeiro mandato, Kassab ainda fez algumas coisas.

É verdade que quase todas as obras e projetos que Kassab colocou em prática em seu primeiro mandato foram iniciados e desenvolvidos no governo da Marta, mas o atual prefeito paulistano, ao menos, dava continuidade e finalizava os projetos e obras que a ex-prefeita petista iniciara. 


Cito vários exemplos disso que afirmo:

1) A construção de CEUs (Centros Educacionais Unificados): Marta fez 24 CEUs e Kassab fez 21, mas todos eles foram feitos em seu primeiro mandato. No segundo governo ele não fez nenhum. Escolas de ensino fundamental e creches também não saíram do papel.

2) A reestruturação do sistema de transporte coletivo, feito pelo governo Marta, que incluía a renovação da frota de ônibus da cidade, com milhares de novos ônibus, foi concluído por Kassab em seu primeiro governo. Mas no segundo ele simplesmente não fez coisa alguma no setor.  


3) Na área da saúde, Marta começou a construção do hospital Cidade Tiradentes e no seu primeiro mandato, Kassab o concluiu, colocando-o em funcionamento. O mesmo vale para um outro hospital, o de M'Boi Mirim, cuja licitação foi feita por Marta e que Kassab construiu.

Então, mesmo com muitas das obras e projetos tendo sido iniciados pelo governo de Marta, Kassab deu continuidade aos mesmos e, daí, teve o que mostrar quando se candidatou à reeleição. E por isso derrotou a própria Marta na eleição de 2008. 


Assim, Kassab se apropriou de tudo o que Marta havia feito e usou isso para derrotá-la na eleição.

Mas, no segundo mandato, as realizações de Kassab sumiram, simplesmente desapareceram.


Kassab não fez NADA de relevante em nenhuma área (educação, saúde, transporte, moradia, saneamento básico) em seu segundo governo. O que ele planejou ficou só no papel.

Exemplos: Kassab prometeu construir 5 corredores exclusivos de ônibus e não fez nenhum. Nenhum novo CEU foi construído. Embora tivesse prometido construir 3 novos hospitais, Kassab também não fez nenhum. 

Então, o segundo mandato de Kassab foi infinitamente pior do que o primeiro. Ao final deste, ainda havia o que mostrar em termos de obras e de realizações, mesmo que grande parte delas não tivessem sido iniciadas pelo seu governo, mas no de Marta. 


Até em função disso, em Outubro de 2008, quando foi reeleito, o governo Kassab era considerado ótimo/bom por 59% e reprovado por apenas 15% dos paulistanos (dados do Datafolha).

Mas ao final deste segundo mandato, depois de quatro anos, o que Kassab tem para mostrar? O PSD. Mais nada.

Essencialmente, é isso que explica a piora sensível da avaliação do governo Kassab nos dois últimos anos, em especial.

E é claro que esse forte desgaste da gestão de Kassab atingiu em cheio à imagem de Serra.

Afinal, quem escolheu Kassab para ser seu vice e o deixou no comando da prefeitura, como o seu sucessor, foi o próprio Serra. 


Agora, o que ocorreu para que essa piora da imagem de Kassab fosse tão grande? E surge a dúvida: como é que o governo de Kassab se deteriorou tanto do ponto de vista administrativo no seu segundo mandato?

Isso tem, a meu ver, duas explicações:

1) Kassab é um brilhante articulador político (conseguiu viabilizar o PSD em pouquíssimo tempo, dando penetração nacional ao partido) mas é um péssimo gestor. Kassab não entende lhufas de administração pública (e, com certeza, nem de administração privada);

2) Se Kassab é um péssimo gestor, como explicar as suas realizações no primeiro mandato? Uma resposta para isso é que não era preciso inventar nada. Bastava dar continuidade ao que Marta já havia feito.

Mas penso que pode haver uma outra razão, que foi a saída do secretário Alexandre de Moraes no final do primeiro mandato de Kassab. Para quem não sabe, ele era uma espécie de 'Dilma' do Kassab, ou seja, o responsável por tirar programas, projetos e obras do papel e colocá-los em prática. 


Coincidentemente, foi depois da demissão dele (ver link abaixo), em Junho de 2010, que o governo Kassab degenerou no aspecto administrativo. Ele era, na prática, o gestor, o administrador da cidade. Isso dava liberdade para Kassab se preocupar com outras coisas. Após a saída de Alexandre de Moraes, nenhum outro secretário acumulou tanto poder e demonstrou a mesma capacidade de iniciativa que ele tinha.

Assim, mesmo nadando em dinheiro (no final de 2011 a prefeitura tinha R$ 10 bilhões guardados ou aplicados no mercado financeiro), o segundo governo Kassab foi um zero à esquerda, não fazendo absolutamente nada de relevante na cidade. Nada.

Com isso, a situação da cidade e a qualidade de vida dos paulistanos piorou muito, em todos os aspectos.

Afinal, a população da capital paulista aumenta em 100 mil pessoas anualmente, ou seja, cresce quase uma Diadema a cada 4 anos. 


Sem a realização de qualquer investimento relevante nos serviços públicos (transportes, educação, saúde) da capital é claro que a qualidade de vida dos paulistanos despencou e Kassab, corretamente, passou a ser mal avaliado pela população.

E essa péssima avaliação da gestão de Kassab pelos paulistanos que, agora, torna-se fatal para a candidatura de Serra, dado o fato de que Kassab é o seu herdeiro político. Simplesmente não há como desvincular Serra de Kassab. Seria como dizer que Lula não tem nada a ver com o governo Dilma, o que é um absurdo total.

Imaginem se, por exemplo, a presidenta Dilma estivesse fazendo um péssimo governo e a popularidade dela estivesse no chão. É claro que isso afetaria, negativamente, a imagem de Lula e o prestígio dele também despencaria. 


É isso o que acontece com Serra. A péssima gestão de Kassab atingiu em cheio a imagem e o prestígio do ex-governador de São Paulo. E é claro que o fato de Serra ter abandonado a prefeitura de SP apenas 15 meses depois de ter tomado posse, sem também ter feito qualquer coisa de relevante na cidade, serve para agravar ainda mais a situação do candidato tucano à prefeitura da capital paulista nesta eleição. 

E é evidente que se Kassab tivesse feito um ótimo segundo mandato e a sua popularidade estivesse nas alturas, é mais do que óbvio que Serra ganharia essa eleição sem maiores dificuldades. Ele poderia fazer como o presidente Lula que, agora, colhe os frutos pelo fato de ter escolhido uma sucessora, Dilma, que faz um governo muito bem avaliado pela população, alcançando um índice de aprovação pessoal de quase 76% segundo a mais recente pesquisa CNT-Sensus. Dilma é tão popular que se a eleição presidencial fosse hoje ela teria 75% dos votos válidos, contra apenas 25% de Aécio.

Agora, após o início da campanha eleitoral no rádio e na TV, muitas pessoas se lembraram de que foi Serra o responsável por deixar Kassab em seu lugar e que este fez um segundo mandato horroroso. Então, é claro que a impopularidade de Kassab acaba sendo, automaticamente, sendo transferida para Serra.

Outros fatores podem até influir na crescente rejeição dos paulistanos à candidatura de Serra, mas entendo que eles são secundários. 


O que pesa, mesmo, para valer, é o péssimo segundo mandato de Kassab e o fato de que ele somente se tornou prefeito porque Serra abandonou a cidade para ser governador do estado. 

O fato concreto é que os paulistanos se cansaram de serem abandonados, primeiro por Serra, para se eleger governador e, depois, pelo próprio Kassab, que abandonou a cidade e percorreu o Brasil inteiro para criar o PSD.

E agora, os mesmos paulistanos que foram abandonados pela dupla Serra-Kassab dão o troco no candidato do PSDB, rejeitando a sua candidatura. 

Portanto, pode-se perfeitamente concluir que tanto Serra, quanto Kassab, apenas estão colhendo os frutos (amargos) dos erros que cometeram nos últimos anos. 


Links:

Por que Serra é tão rejeitado? - Eduardo Guimarães:

http://www.blogdacidadania.com.br/2012/08/ninguem-explicou-direito-ainda-o-baque-eleitoral-de-jose-serra/

Outubro de 2008: Aprovação a Kassab  chega a 59%, diz Datafolha:

http://datafolha.folha.uol.com.br/po/ver_po.php?session=823

Março de 2010: Datafolha mostra que reprovação a Kassab chega a 34%:

http://datafolha.folha.uol.com.br/po/ver_po.php?session=955

Março de 2011: Reprovação de Kassab chega a 43%, diz Datafolha:

http://noticias.r7.com/sao-paulo/noticias/pesquisa-datafolha-mostra-que-reprovacao-a-administracao-kassab-chega-a-43-20110321.html

Agosto de 2012: Datafolha - Reprovação de Kassab chega a 36%:

http://odia.ig.com.br/portal/brasil/eleicoes2012/kassab-tem-menor-nota-entre-seis-capitais-brasileiras-diz-datafolha-1.482913

Alexandre de Moraes sai do governo Kassab:


http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,cai-alexandre-de-moraes-o-supersecretario-de-kassab,563103,0.htm

Aprovação do governo Dilma passa de 56%; aprovação pessoal de Dilma ultrapassa 75%:

http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-08-03/cntsensus-aumenta-em-sete-pontos-aprovacao-do-governo-dilma

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