sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Eleições municipais de 2012: 'São os serviços públicos de qualidade, estúpido!' - por Marcos Doniseti!

Eleições municipais de 2012: 'São os serviços públicos de qualidade, estúpido!' - por Marcos Doniseti!

Vitória e votação de Haddad no 2o. turno colocam em xeque tese sobre suposta 'ascensão conservadora' em São Paulo! - por Marcos Doniseti!

Na eleição municipal deste ano o eleitorado brasileiro deixou um recado bem claro, que é o seguinte: 'São os serviços públicos de qualidade, estúpido!'.

(atualizado às 17:30hs do dia 02/11/2012)

Haddad, mesmo disputando a sua primeira eleição, conseguiu derrotar Serra, com o decisivo apoio dos extremamente populares presidentes Lula e Dilma. 

Durante o primeiro turno da eleição municipal paulistana, alguns analistas (como este modesto blogueiro) apontaram para o inegável caráter conservador da candidatura de Celso Russomanno, que liderou as pesquisas durante boa parte do primeiro turno.

Outros analistas, como Vladimir Safatle, disseram que isso (a liderança de Russomanno) mostrava que estava se desenvolvendo uma 'ascensão conservadora' na capital paulista.

E tudo isso porque o candidato que liderava, com folga, as pesquisas de intenção de voto era Celso Russomanno, ex-malufista do PP e que é do PRB (partido controlado pela Igreja Universal) e que fazia um discurso muito conservador nos aspectos religioso e de comportamento.

Porém, ao analisarmos os resultados da eleição na periferia paulistana, do primeiro e do segundo turnos, fica claro que Haddad conquistou, na fase final da eleição, uma imensa vantagem sobre Serra entre o eleitorado que havia votado em Russomanno, Chalita e nos demais candidatos no primeiro turno.

Basta comparar os resultados de algumas regiões para se constatar isso. Senão, vejamos:

1) Cidade Tiradentes (zona leste de SP):

1o. turno:

Haddad 46,04%;
Russomanno 27,27%;
Serra 12,40%
Chalita 10,55%;
Outros 3,74%.

2o. turno:

Haddad 80,09%;
Serra 19,91%.

Vejam que se excluirmos a votação de Serra e de Haddad, os demais candidatos somaram 41,56% dos votos válidos no primeiro turno. E no segundo turno, Haddad alcançou 80,09% dos votos válidos.

Assim, Haddad passou de 46,04% para 80,09% dos votos, conquistando 34,05 p.p. dos 41,56 p.p. que ele disputava com Serra. Isso equivale a 81,92% dos votos dos eleitores dos outros candidatos.

Portanto, 4 de cada 5 eleitores que haviam votado em outros candidatos, no primeiro turno, escolheram Haddad no turno final.

2) Parelheiros (zona sul de SP)

1o. turno:

Haddad 46,93%;
Russomanno 25,50%;
Chalita 13,18%;
Serra 10,03%;
Outros: 4,36%.

2o. turno:

Haddad 83,5%.
Serra 16,5%.

Nesta região, onde Haddad obteve a sua mais expressiva vitória no segundo turno (alcançando impressionantes 83,5% dos votos), 43,04% dos votos foram dados, no primeiro turno, aos outros candidatos (excluindo Haddad e Serra). Deste total, Haddad ficou com 36,57 p.p., enquanto Serra obteve apenas 6,47 p.p.

Logo, Haddad conquistou, no segundo turno, 85% dos votos dados para os outros candidatos no primeiro turno (excluindo ele e Serra).

3) Perus (zona norte de SP):

1o. turno:

Haddad 40,42%;
Russomanno 27,57%;
Serra 15,68%;
Chalita 11,75%;
Outros 4,58%.

2o. turno:

Haddad 74,18%;
Serra 25,82%.

Nesta região, os demais candidatos (excluindo Haddad e Serra) alcançaram 43,90% dos votos no primeiro turno. Deste total, o candidato petista conquistou, no segundo turno, o equivalente a 33,76 p.p. (o que representa 76,9% dos eleitores). Serra, por sua vez, conquistou os demais 10,14 p.p., o que representa 23,1% dos eleitores dos demais candidatos.

Novamente se observa o mesmo fenômeno que ocorreu nas regiões de Cidade Tiradentes e de Parelheiros, ou seja, a imensa maioria dos votos dados para os outros candidatos (excluindo Haddad e Serra), no primeiro turno, migraram para Haddad no segundo turno.

E nestas três regiões, o candidato do PRB sempre foi o segundo colocado. Assim, fica claro que o eleitorado da periferia paulistana que havia votado em Russomanno, no primeiro turno, migrou de forma maciça para Haddad no segundo turno.  

O mesmo raciocínio vale para os votos dados a Chalita, Paulinho, Soninha, etc, no primeiro turno. Eles migraram, maciçamente, para Haddad, no segundo turno, entre os eleitores da periferia paulistana.

Assim, entendo que os eleitores da periferia pobre de São Paulo não votaram nestes candidatos, no primeiro turno, porque eles eram considerados como sendo conservadores ou progressistas, mas porque eles eram vistos pelo eleitorado, tal como Haddad, como sendo candidatos de OPOSIÇÃO ao governo de Serra-Kassab.

Que existem eleitores com formação conservadora na periferia paulistana, isso é inegável. Mas o resultado da eleição na capital paulistana mostrou que, mesmo assim, o que predominou na hora de definir o voto não foi o critério 'liberal x conservador', mas sim o de 'governo x oposição'.

O sentimento de oposição ao governo Serra-Kassab foi muito mais importante, para definir a opção do eleitorado da periferia paulistana. Este aspecto do voto teve um nítido e claro predomínio nesta eleição, deixando em segundo plano a questão dos valores morais ou religiosos, seja dos eleitores, ou mesmo dos próprios candidatos.

Assim, tais eleitores da periferia pobre da capital paulista até podem ser (e muitos são) conservadores, mas não são tão burros, e nem masoquistas, a ponto de votar num candidato que representa a continuidade de um governo que nada fez para melhorar a sua vida, muito pelo contrário.

Logo, a consciência ou percepção política a respeito do péssimo governo feito por Kassab, e do qual a candidatura de Serra representava a continuidade, é que foi o fator decisivo que levou Haddad a obter uma votação maciça na periferia mais pobre de São Paulo, mesmo entre eleitores que professam valores mais conservadores nos aspectos moral ou religioso.

E isso também ajuda a explicar porque, afinal, a entrada de Malafaia na campanha foi prejudicial para Serra.

Eduardo Paes (à direita) é exemplo de prefeito bastante popular e que se reelegeu com facilidade e já no 1o. turno destas eleições. 

Portanto, ficou claro, nesta eleição, que a população pobre da periferia de São Paulo não estava preocupada, neste momento, com questões como o do 'kit gay' (que foi introduzida na campanha eleitoral por Serra e Malafaia), mas sim com a péssima qualidade dos serviços públicos (educação, saúde, transportes coletivos, segurança pública, etc) nas regiões onde vive e que são, em grande parte, de responsabilidade da prefeitura paulistana.

Inclusive, Serra somente conseguiu tirar alguns votos de Haddad na última semana de campanha quando passou a dizer que o candidato petista iria romper os acordos feitos com as OSS, que atuam na área da saúde, e que isso iria prejudicar a qualidade do atendimento no setor. 

Isso era mentira de Serra, pois o programa de Haddad não defende tal proposta, mas parece que o terrorismo feito pela campanha de Serra funcionou junto a uma parte do eleitorado e Haddad terminou com 55,5% dos votos válidos, contra 58%-59% que eram apontados pelas pesquisas. Assim, fica claro que Serra errou em falar tanto do 'mensalão', deixando a realidade que o paulistano enfrenta no seu cotidiano em segundo plano durante a sua campanha. 

Além disso, a própria candidatura de Celso Russomanno somente despencou nas pesquisas nos últimos 10 dias do primeiro turno quando ficou claro para a população da periferia paulistana de que a proposta que ele havia apresentado, de cobrar uma tarifa proporcional ao trajeto percorrido, lhe seria fortemente prejudicial, principalmente porque muitos empresários poderiam mandar embora ou se recusar a contratar pessoas que moram longe do local de trabalho. 

Na verdade, Russomanno somente chegou a ter 35% nas pesquisas do Ibope e do Datafolha porque o PT lançou um candidato, Fernando Haddad, que era um ilustre desconhecido dos paulistanos. 

Russomanno era mais forte justamente nas regiões, da periferia de São Paulo, onde o PT, já há muitas eleições, vence as disputas, independente do cargo. A imensa maioria dos vereadores petistas, por exemplo, tem a sua base eleitoral na periferia de São Paulo. O mesmo vale para deputados estaduais e federais do partido.

Não tenho a menor dúvida de que se Marta ou mesmo Mercadante tivessem sido escolhidos como o candidato do partido à prefeitura de São Paulo, Russomanno dificilmente teria ultrapassado os 10% das intenções de voto (que foi, aliás, o patamar que ele atingiu há dois anos atrás, na eleição para o governo do estado). 

E se levarmos em consideração que a rejeição à Serra e Kassab atingiu patamares bastante elevados, é bem possível que qualquer candidato que o PT lançasse fosse vitorioso nesta eleição, o que não significa que Haddad não tenha méritos. Ele os tem, sim, e muitos. 

Mas o que fica claro pela maneira como o eleitorado da periferia paulistana votou no primeiro e no segundo turnos nesta eleição é que ele estava à procura de um candidato forte, capaz de derrotar a dupla Serra-Kassab. 

E enquanto Russomanno liderou as pesquisas, ele era visto por este eleitorado, como o candidato que possuía essa capacidade. 

Quando Haddad começou a subir nas pesquisas e Russomanno despencou, o candidato do PT passou a ser visto como o mais capaz de derrotar Serra-Kassab e de vencer a eleição e, por isso, ele foi ao segundo turno e recebeu a adesão maciça dos eleitores dos demais candidatos. 

Por que Kassab é tão mal avaliado e, com isso, contaminou a candidatura de Serra (tal como o péssimo governo feito por Celso Pitta derrotou Maluf no ano 2000), levando-o à derrota? 

Oras, Kassab praticamente abandonou a cidade nos últimos quatro anos e não fez praticamente nada neste segundo mandato, o que gerou uma sensível piora na qualidade de vida dos paulistanos, principalmente os da periferia, que são os que enfrentam maiores dificuldades, em todas as áreas (saúde, educação, transporte, saneamento básico, habitação, segurança pública, etc). 

Tudo isso confirma, a meu ver, algo que já escrevi, aqui no blog, anteriormente, ou seja, que os governantes que não derem prioridade para a melhoria da qualidade dos serviços públicos serão fragorosamente derrotados, não importando a qual partido eles pertençam ou se eles são progressistas ou conservadores. E aqueles governantes que se dedicarem a melhorar tais serviços, serão os futuros vitoriosos das eleições.

Alguns exemplos deixaram isso bem claro nesta eleição, como:

1) Os prefeitos de Porto Alegre (José Fortunati, PDT), Goiânia (Paulo Garcia, PT), Rio de Janeiro (Eduardo Paes, PMDB) e de Belo Horizonte (Marcio Lacerda, PSB) tinham governos bem avaliados pela população e venceram a eleição no primeiro turno.

2) Os governantes de Curitiba (Luciano Ducci, PSB), Recife (João da Costa, PT) e Gilberto Kassab (PSD, identificado com Serra) e de Natal (Micarla de Sousa, PV) eram mal avaliados pela população e acabaram, de uma forma ou de outra, derrotados nesta eleição.

Notem que citei vários governantes e de vários partidos distintos, tanto no caso dos vitoriosos, como no caso dos derrotados. O que une todos eles: a mesma coisa, ou seja, o fato de que os vitoriosos eram bem avaliados pela população e os derrotados, não.

Simples, assim.

Kassab, ex-vice de Serra, tornou-se tão impopular que acabou provocando a derrota de seu criador. 

Isso reforça a minha tese de que não foram critérios como o de 'liberal-progressista X conservador' (como defendeu Vladimir Safatle) que definiu o resultados destas eleições, mas o fato do governante ser bem avaliado pela população ou não.

Pode até ser que, em uma outra eleição, disputada em circunstâncias bem distintas, essa questão 'liberal x conservador' torne-se relevante e até chegue a definir o resultado. Mas não foi isso que aconteceu nesta eleição disputada na capital paulista e que terminou com a vitória de Fernando Haddad. 

Entendo que Celso Russomanno somente se manteve na liderança folgada das pesquisas enquanto foi visto, principalmente pela população mais pobre da periferia paulistana, como a melhor opção para derrotar Serra, que era totalmente identificado com um governo altamente impopular, que é o de Kassab, e que nada fez para melhorar a vida da mesma.

Também penso que em função das políticas adotadas pelo governo Lula-Dilma (geração de 17 milhões de empregos formais, aumento do poder de compra do salário mínimo, redução do custo do crédito, programas de inclusão social, etc) grande parte da população brasileira mais pobre passou a desfrutar de melhores condições de trabalho e de vida, ganhando salários melhores e consumindo bens e serviços que antes eram inacessíveis para a mesma.

Agora, essa população que ascendeu social e economicamente durante os governos Lula-Dilma tem nova ambições e desejos. 

E penso que ela, agora, quer mais do que simplesmente comprar um aparelho novo de TV ou de celular. Isso ela, em grande parte, já possui. 

Agora, o que essa parcela da população mais deseja é ter acesso a serviços públicos de qualidade, como os de educação, saúde, transportes coletivos, segurança pública. 

Alguns especialistas, como é caso do economista Marcelo Neri, se referem a essa camada como sendo uma 'nova classe média', enquanto que outros, como é o caso do também economista Marcio Pochmann, preferem denominá-la de 'nova classe trabalhadora'.

Micarla de Sousa (PV), prefeita de Natal, é uma das prefeitas (os) mais impopulares do Brasil. 

Independente disso, o fato é que esse segmento da população quer continuar melhorando de vida e deixou isso bem claro nestas eleições municipais.    

Como disse a campanha de Fernando Haddad, a vida desta parcela mais pobre da população melhorou bastante da porta de casa para dentro. Agora ela deseja que a sua vida melhore da porta de casa para fora.

E é bom que fique bem claro uma coisa: Os governantes que não entenderem esse recado que a população deixou nas urnas  nestas eleições, podem começar a se preparar para desfrutar de uma longa aposentadoria, pois não vencerão mais eleição alguma. E isso vale, inclusive, para os prefeitos recentemente eleitos. 

Quem viver, verá. 

Links:

Vladimir Safatle e a 'ascensão conservadora':


Datafolha: Popularidade dos prefeitos de capitais em Agosto de 2012:

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