sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A 'Folha' mente! - Porque o déficit externo de 2013 não foi recorde! - por Marcos Doniseti!

A 'Folha' mente! - Porque o déficit externo de 2013 não foi recorde! - por Marcos Doniseti!




A 'Folha' divulgou hoje que o déficit externo brasileiro de 2013 (em transações correntes) teria sido um recorde histórico, atingindo o valor de US$ 81,4 bilhões.

O grande problema desta afirmação está no uso, pelo jornal, de um valor nominal para chegar à conclusão de que o 'déficit externo bateu recorde' em 2013.

E o fato concreto é que não se costuma utilizar o valor nominal para dizer se o déficit externo de um país foi recorde ou não, se ele está crescendo ou diminuindo.  

O que se faz, no mundo inteiro, é divulgar o quanto aquele valor nominal representa do PIB do país. E em 2013 o déficit externo representou 3,66% do PIB brasileiro.

Quando fazemos isso, ou seja, calculamos o déficit com base na porcentagem que o mesmo representa do PIB do país, descobrimos que embora o déficit externo de 2013 tenha crescido bastante em relação aos anos anteriores, ele ainda está muito longe de ser um recorde histórico. 

Então, é bom esclarecer que esse (o quanto o déficit representa em % do PIB) é o critério usado no mundo todo para se saber qual é o déficit em transações correntes de um país e não o seu valor nominal, como fez a 'Folha', ok?

Até 2013, os maiores déficits externos da história brasileira (em % do PIB) foram os seguintes (fonte: Ipeadata):

1) 1974 - 6,80%;
2) 1982 - 6,00%;
3) 1975 - 5,39%;
4) 1980 - 5,36%;
5) 1979 - 4,79%;
6) 1981 - 4,53%;
7) 1999 - 4,32%;
8) 2001 - 4,19%;
9) 1976 - 4,17%;
10) 1998 - 3,96%;
11) 2000 - 3,76%;
12) 2013 - 3,66%;
13) 1983 - 3,57%;
14) 1997 - 3,50%;
15) 1978 - 3,47%.

Assim, notem que o déficit externo de 2013 foi apenas o décimo segundo maior da história do país. Em outros onze anos tivemos déficits maiores do que o de 2013.

Aliás, é interessante notar que dos quinze anos com maior déficit externo (em transações correntes), nove foram na época da Ditadura Militar (1974, 1982, 1975, 1980, 1979, 1981, 1976, 1983, 1978), logo na sequência dos chamados 'Choque do Petróleo' (o primeiro aconteceu em Outubro de 1973, em função da Guerra do Yom Kippur, e o segundo ocorreu em 1979-1980, devido à Guerra Irã-Iraque). 

E os outros cinco maiores déficits externos ocorreram no governo FHC (1999, 2001, 1998, 2000 e 1997).

E note-se que em nove anos os déficits externos sempre superaram os 4% do PIB, no mínimo. 

Assim, tivemos dois anos com déficits externos de 6% do PIB ou mais (1974 e 1982), outros dois anos déficits externos que ultrapassaram os 5% do PIB (1975 e 1980) e cinco anos com déficits externos superiores aos 4% do PIB (1979, 1981, 1999, 2001, 1976). E também tivemos seis anos com déficits superiores a 3,4% do PIB (1998, 2000, 2013, 1983, 1997 e 1978).

Até o momento, nos governos Lula-Dilma, 2013 foi o único ano em que o déficit externo ficou acima dos 3,4% do PIB. 

Entre 2003 e 2007 o Brasil teve superávit externo, obtendo os seguintes resultados (em % do PIB):

2003 - + 0,75%;
2004 - + 1,76%;
2005 - + 1,58%;
2006 - + 1,27%;
2007 - + 0,11%.

A partir de 2008 é que voltamos a ter déficits externos, obtendo os resultados abaixo:

2008 - 1,72%;
2009 - 1,52%;
2010 - 2,20%;
2011 - 2,12%;
2012 - 2,19%;
2013 - 3,66%.

Então, percebe-se que somente em 2013 é que tivemos um déficit externo superior a 3,4% do PIB durante os governos de Lula e Dilma (2003-2013), em um período de onze anos de governo. 

E em todas as vezes que o Brasil foi atingido por uma crise externa, isso somente aconteceu depois de vários anos consecutivos com déficits em transações correntes superiores a 3,5%, 4% e até 5% ou 6% do PIB.

Portanto, se alguém espera uma crise das contas externas para breve, pode tirar o cavalo da chuva.


Desde Fevereiro de 2013 o dólar se valorizou 22,4% em relação ao Real, estando cotado atualmente em R$ 2,40.


Além disso, atualmente o Brasil conta com reservas internacionais líquidas de US$ 376 bilhões, que são equivalentes a 17% do PIB brasileiro, algo que não acontecia nas crises externas de 1982 e de 1998-1999.

E não podemos esquecer que, nos próximos anos, a produção e exportação do petróleo do pré-sal irá elevar significativamente as exportações brasileiras, o que irá contribuir para reduzir tal déficit. E as previsões para a economia mundial apontam para uma retomada do crescimento econômico nos países ricos (EUA e UE), o que irá contribuir, é claro, para o aumento das exportações brasileiras. 

Além do mais, a desvalorização do Real que tivemos desde a posse de Dilma, em 2011, foi significativa. Quando tomou posse, em 01/01/2011, o dólar estava cotado a R$ 1,66 e agora o mesmo se encontra no patamar de R$ 2,40. 

Assim, o dólar valorizou 44,6% em relação à moeda brasileira nos últimos três anos de governo Dilma. 

E sempre que isso acontece (ou seja, que a moeda nacional é desvalorizada), as exportações brasileiras aumentam (pois os produtos brasileiros ficam mais baratos) e as importações diminuem (pois elas ficam mais caras), elevando o superávit comercial, o que contribui para reduzir o déficit externo.

Brasil ganhou bastante espaço no total das exportações mundiais entre 2002 e 2011, passando de 0,96% para 1,44% do total mundial, acumulando um crescimento de 50% em termos reais no período.

Portanto, a manchete da 'Folha', sobre o déficit externo brasileiro de 2013, é totalmente mentirosa. O déficit do ano passado em transações correntes foi bem maior do que o dos anos anteriores, mas ficou bem longe de ser o maior da história do país. 

Mas para quem disse, como a 'Folha' fez, que as vendas de Natal de 2013 foram 'as piores em 11 anos', mesmo tendo crescido 5% nas lojas físicas e aumentado outros 41% pela Internet, isso não deve ser nenhum problema, não é mesmo?

'Folha' - Não dá para não deixar de ler.

Links:

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2014/01/1402235-rombo-nas-contas-externas-alcanca-us-814-bi-e-bate-recorde.shtml

http://www.ipeadata.gov.br/

http://www.financeone.com.br/moedas/cotacoes-do-dolar

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