sábado, 19 de abril de 2014

Porque a crise econômica nos países ricos ainda está longe do fim? - por Marcos Doniseti!

Porque a crise econômica nos países ricos ainda está longe do fim? - por Marcos Doniseti!


Em 2013, a taxa de desemprego na Espanha chegou a 26%. 

É mais do que evidente que a oposição de Direita tem, nesta campanha presidencial, duas candidaturas que visam claramente enterrar o modelo político, econômico e social inaugurado pelo governo Lula a partir de 2003 e que foi intensificado, principalmente, após a não renovação do acordo com o FMI no final de 2005.

Esse modelo é claramente marcado por uma combinação de desenvolvimento econômico e inclusão social, que é alcançado por meio de uma significativa intervenção estatal na economia e na área social. Outra característica deste modelo é uma política externa que busca promover uma inserção soberana do Brasil no instável, fortemente competitivo e altamente conflitivo cenário mundial que surgiu com o desenvolvimento de uma Nova Ordem Mundial.

Nesta, os EUA agem, virtualmente, como uma Ditadura Global Hegemônica e cuja política é baseada no PNAC (Projeto para um Novo Século Americano), que foi elaborado por políticos e intelectuais NeoCons do Império Ianque em 1990. Tal estratégia passou a ser levada adiante após os atentados de 11 de Setembro de 2001, os quais foram muito convenientes para os Neocons, que os consideraram como sendo 'um novo Pearl Harbor', o que foi admitido pelo próprio presidente dos EUA, W.Bush, e pelo então número dois do Pentágono, Paul Wolfowitz. 

Além disso, a economia capitalista global tem como o seu principal alicerce a liberação ilimitada e irrestrita do mercado de capitais (mas não do mercado de trabalho e nem do mercado agrícola, pois isso acarretaria maiores benefícios aos países emergentes do que os países ricos). 

Esse processo de liberalização financeira transformou a mesma em um imenso cassino globalizado, com a especulação financeira irracional e desenfreada assumindo um papel crescente na economia mundial, o que fortaleceu sobremaneira o Capital Financeiro (bancos, fundos de investimento, etc). 

Atualmente, o valor do capital investido no mercado financeiro globalizado é quase 20 vezes maior do que o PIB mundial e uma parcela crescente dos lucros das empresas capitalistas pelo mundo afora tem a sua origem em aplicações financeiras altamente especulativas (em moedas, ações, títulos públicos e privados, etc).



Na hora da crise, os grandes capitalistas inventam desculpas esfarrapadas para justificar o momento de dificuldades e colocar a culpa nos setores que mais sofrem com elas.


Assim, os detentores e administradores deste Capital Financeiro Especulativo acabaram por adquirir tem um papel cada vez maior e fundamental na elaboração e execução de políticas públicas pelo mundo afora. 

Mas, um dos grandes problemas desse tipo de economia é que ela é altamente instável e está sujeita a crises frequentes e cada vez mais graves, o que afeta com intensidade cada vez maior a população de um número crescente de países. 

Nas últimas décadas, as chamadas crises financeiras começaram a se alastrar por todo o planeta. Elas tiveram início em países emergentes que eram fortemente dependentes do capital especulativo de curto prazo, que era usado para financiar as suas contas externas, a fim de mantê-las equilibradas. 

Mas isso durava poucos anos, no máximo até que os especuladores percebessem que esta era uma situação artificial. Daí, eles retiravam rapidamente o capital aplicado nestes países (México, Tailândia, Indonésia, Malásia, Filipinas, Rússia, Argentina, Brasil) e deixavam um rastro de destruição econômica e social para trás. 

Tais nações sofriam com falências, desemprego, maxidesvalorizações cambiais, aumento da concentração de renda, da pobreza e da miséria. Em muitos destes países, a pobreza chegou a ultrapassar 40% ou 50% da população, o que foi o caso da Argentina, onde uma numerosa classe média foi devastada pela crise que estourou em 2001-2002. 

Como resultado do fracasso destas políticas Neoliberais, rebeliões populares derrubaram vários dos governos destas nações, não importando se eram países democráticos (Argentina, onde o presidente Fernando de La Rua saiu pela porta dos fundos da Casa Rosada) ou ditaduras duradouras e sanguinárias (caso de Suharto, na Indonèsia).

No caso do Brasil, a crise econômica também foi forte, resultando na maxidesvalorização do Real em Janeiro de 1999 e na estagnação econômica que durou de 1998 a 2003, mas não foi tão intensa quanto na Argentina ou na Indonésia. 

E um dos principais motivos para isso é que o Brasil, devido a uma forte resistência popular organizada (promovida por movimentos sociais, sindicatos e centrais sindicais, partidos de Esquerda, etc), preservou algumas das principais instituições e conquistas do período Varguista-Trabalhista (1930-1964), como a CLT, a Petrobras e o BNDES, entre outras. 


Enquanto o desemprego se espalha e se massifica pela Europa, os grandes capitalistas, principalmente os banqueiros, estão cada vez mais ricos. 


O fracasso do Neoliberalismo também chegou aos países ricos a partir da crise econômica-financeira que começou em 2007, nos EUA, no mercado de hipotecas subprime, e que atingiu em cheio o mercado financeiro privado ianque e europeu em 2008-2010. 

Essencialmente, todo o sistema financeiro privado dos EUA e da Europa quebraram neste período de tempo, o que ameaçou jogar toda a economia mundial em uma severa e brutal Depressão, que seria muito maior e mais intensa do que a dos anos 1930. 

A forte atuação do Estado e dos  Bancos Centrais dos países ricos, no entanto, conseguiu impedir que uma nova Grande Depressão de longa duração atingisse os mesmos, afetando toda a economia mundial. 

Porém, a forma com que essa atuação se deu, priorizando o salvamento, pelo Estado, das instituições financeiras privadas falidas, nas quais foram aplicados cerca de US$ 19 trilhões, a fim de evitar a falência das mesmas. Mas a maneira como isso foi feito agravou significativamente a situação fiscal dos Estados em todo o mundo desenvolvido. 

O salvamento das instituições financeiras e dos bancos privados falidos virtualmente dobrou a dívida pública, que em muitos países ricos passou de 50% para 100% do PIB ou algo próximo disso. Isso aconteceu, por exemplo, nos EUA, França e na Grã-Bretanha. 

E depois disso, os governos neoliberais dos EUA e da UE adotaram políticas de austeridade, reduzindo fortemente os direitos sociais, trabalhistas e previdenciários, com o objetivo de reduzir tal endividamento. 

Assim, optou-se por uma política que beneficiou aos mesmos grupos sociais que foram os grandes responsáveis por gerar a crise, ou seja, o sistema financeiro privado voltado inteiramente para a especulação financeira irracional e sem limites, prejudicando os trabalhadores, os jovens, os aposentados e os mais pobres, que são os segmentos que mais foram afetados por tal crise. 

Esta foi uma solução completamente diferente daquela que foi adotada pelo governo de Franklin D. Roosevelt durante a Grande Depressão da década de 1930, quando tivemos a adoção de políticas de distribuição de renda e de aumentos salariais, criação do seguro-desemprego e da Previdência, fortalecimento dos sindicatos, forte aumento dos investimentos e dos gastos sociais públicos. 

Tal escolha impediu que, na crise atual, tivéssemos uma real recuperação das economias dos países desenvolvidos, mesmo com a taxa de juros chegando a virtualmente 0% ao ano e com os governos injetando trilhões de Dólares e de Euros em suas economias, via empréstimos com condições facilitadas, políticas de estímulo monetário (como o FED passou a fazer a partir de 2008, aquisição (pelos Bancos Centrais) de títulos privados podres em poder dos bancos e de instituições financeiras privadas falidas, a fim de se promover a retomada do crescimento econômico.

Isso aconteceu porque uma das causas fundamentais da crise não foi, de fato, atacada, que é a corrosão do poder de compra dos salários dos trabalhadores e o forte endividamento das famílias da classe média e da classe trabalhadora. 
Com isso, as economias dos países ricos continuam virtualmente estagnadas e ainda se encontram em um patamar bem abaixo daquele que estavam antes do início da crise, em 2007-2008. 

Assim, a taxa de desemprego nos países ricos permanece em um nível altíssimo, com poucas exceções. Nos EUA, por exemplo, a taxa atual é de 6,7%, bem acima dos 4,4% de 2007, antes da crise se iniciar. Na Espanha, o desemprego fechou 2013 em absurdos 26% e a Itália bateu um recorde histórico, com a taxa de desemprego atingindo os 13%.

Enquanto isso, no Brasil, o mês de Março fechou com a menor taxa de desemprego da história para o mês, ficando em apenas 5%, bem inferior aos 5,7% de Março de 2013. Além disso, apenas no primeiro trimestre de 2014, a taxa de desemprego o rendimento médio real dos trabalhadores aumentou 3% e o número de empregos com carteira assinada cresceu 2,5%. 


Enquanto o desemprego em massa se alastra pela Europa, no Brasil este é um problema do passado. 


E a razão principal para que o Brasil tenha seguido uma trajetória inversa à dos países ricos, a partir de 2007-2008, foi a escolha feita pelo governo Lula quando decidiu combater os efeitos da crise gerada pelas economias dos EUA e da UE. O governo Lula optou por adotar uma política econômica keynesiana, anticiclíca, seguindo um caminho muito semelhante ao adotado pelo governo Roosevelt, nos EUA, nos anos da Grande Depressão da década de 1930.

Assim, o governo Lula aumentou os investimentos públicos, elevou os gastos sociais, reduziu a taxa de juros, diminuiu os impostos e aumentou os salários. Esse conjunto de politicas deu ótimos resultados e fez com que o Brasil fosse o último país a entrar em crise, bem como foi o primeiro a sair da mesma. 

Como resultado disso, o poder de compra dos salários dos trabalhadores brasileiros continuou crescendo, o desemprego diminuiu de tal maneira que se encontra em seu menor nível histórico (fechando 2013 em apenas 4,3%, contra 10,5% no final de 2002) e a geração de empregos formais já ultrapassou os 20 milhões entre 2003-2014. 

Portanto, ficou claro que a estratégia econômica do governo Lula foi a mais correta para combater as consequências da crise financeira desencadeada nos países ricos em 2007-2008 e que se espalhou pelo mundo afora nos anos seguintes. 

Logo, não é nenhum absurdo concluir que se os países ricos quiserem sair da crise na qual mergulharam em 2007-2008, então eles deveriam se espelhar no caso do Brasil, seguindo o exemplo deste. 

Mas a correlação de forças existente nas sociedades e nas economias dos países desenvolvidos, atualmente, é totalmente desfavorável aos movimentos sociais e populares com passado de Esquerda e de Centro-Esquerda. 

Este fenômeno tem várias causas, como: 

A) A desindustrialização acelerada dos países da Europa Ocidental (o mesmo processo se desenvolveu nos EUA), com grande parte do parque industrial da região se transferindo para países do antigo Bloco Socialista (Polônia, Hungria, República Tcheca) ou para outros países emergentes (China, por exemplo);

B) O enfraquecimento do movimento sindical, o que está diretamente relacionado à desindustrialização;

C) O desmoronamento da URSS e a consequente crise política e ideológica que se abateu sobre os antigos e tradicionais Partidos Comunistas europeus ocidentais, mesmo daqueles que emergiram da Segunda Guerra Mundial com grande apoio popular (caso dos Partidos Comunistas francês e italiano, em especial);

D) A ruptura do acordo político e social, construído no Pós-Guerra, entre os interesses do Capital e do Trabalho, por meio do qual tornou-se possível a construção de um Welfare State que reduziu substancialmente a concentração de renda e as desigualdades sociais em todo o Velho Mundo;

E) O rápido crescimento do desemprego e do número de empregos precários em toda a Europa Ocidental, tal como acontece na Alemanha, onde grande parte dos novos empregos são de baixos salários e de meio período.

Isso também contribuiu para o enfraquecimento do movimento sindical europeu, bem como para a expansão da xenofobia e do racismo (que tem raízes históricas e culturais na Europa), pois os trabalhadores de baixos salários destes países vêem os imigrantes como possíveis concorrentes a ocupar tais vagas, já que muitos destes trabalhadores (que vieram, na sua maioria, das antigas colônicas europeias na Ásia, África e América Latina) se sujeitam a trabalhar por baixos salários e em condições precárias, pois são originários de países extremamente pobres ou que mergulharam em grave crise econômica e social (caso dos países do ex-Bloco Socialista europeu). 

Os partidos que, anteriormente, adotavam políticas favoráveis à construção de um Welfare State (Estado de Bem-Estar Social) se afastaram das suas origens políticas, sociais e ideológicas e acabaram adotando o paradigma Neoliberal, que passou a determinar as políticas executadas pelos partidos Socialistas, Trabalhistas e Social-Democratas de, praticamente, todas as nações europeias. 


Os governos Lula e Dilma fortaleceram a Petrobras, que aumentou fortemente a produção de petróleo, o seu valor de mercado e a sua receita. 

Um exemplo perfeito disso foram as recentes medidas anunciadas pelo governo de François Hollande, do Partido Socialista Francês, que penaliza os trabalhadores e os aposentados, promovendo um congelamento dos salários do funcionalismo público e dos benefícios dos aposentados.

Assim, ao enfrentar uma crise econômica e social extremamente grave, sem movimentos sociais de extração popular (sindical, estudantil, intelectuais, etc) que possam dar sustentação a um projeto de inclusão sociail e que agisse no sentido de promover a manutenção do Welfare State, com o processo de desindustrialização em pleno andamento, sem a existência de partidos de Esquerda e Centro-Esquerda fortes e que pudessem lutar contra as políticas de austeridade e sem que exista um modelo alternativo dentro do Velho Mundo (como era a URSS e os países membros do Bloco Socialista eurooeu) que pudesse representar algum tipo de ameaça à Hegemonia neoliberal, esta acaba sendo imposta a uma população europeia que somente consegue reagir por meio do racismo, da xenofobia e do crescente apoio à movimentos neofascistas, ultranacionalistas e de extrema-direita. 

E assim a crise, que somente poderia ser superada, de fato, com políticas de distribuição de renda, de aumentos salariais e com o estabelecimento de restrições aos interesses do grande capital financeiro especulativo, acaba por se estender a um grande número de países e a durar muito mais tempo do que o inicialmente previsto.

Links:

Taxa de desemprego nos EUA é de 6,7% em Março:

http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/04/taxa-de-desemprego-nos-eua-se-mantem-em-67-em-marco.html

Taxa de desemprego na Espanha fecha 2013 em 26%:

http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/01/taxa-de-desemprego-na-espanha-subiu-2603-em-2013.html

Taxa de desemprego na Itália chega a 13% em Fevereiro:

http://www.jb.com.br/economia/noticias/2014/04/01/italia-registra-mais-um-recorde-de-desemprego/

Brasil: Taxa de desemprego cai para 5% em Março, o menor nível da história para o mês:

http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2014-04/marco-registrou-taxa-de-desemprego-de-5

Hollande anuncia arrocho salarial e cortes nos gastos sociais para combater a crise:

http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/PS-sacrifica-o-sistema-de-protecao-social-frances/6/30749

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