sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Lula, Chávez e Tsipras: Uma comparação ridícula! - por Marcos Doniseti!

Lula, Chávez e Tsipras: Uma comparação ridícula! - por Marcos Doniseti!

Em 2002, 34 ,4% dos brasileiros viviam abaixo da linha de pobreza.


Paulo Nogueira, do 'Diário do Centro do Mundo', escreveu aquele que é um dos piores textos que já li, na minha vida, a respeito da situação política de algum país. 

A comparação feita no mesmo entre os governos de Lula, Chávez e Tsipras é totalmente patética e ridícula, pois ela ignora as especificidades de cada país e de cada sociedade e que, além disso, se encontravam em momentos e ciclos históricos distintos quando estas lideranças chegaram ao comando de seus países. 

Senão, vejamos:

1) Sistema Político: Em primeiro lugar, o PT nunca obteve, sozinho, a maioria absoluta dos votos para o Congresso Nacional. 

Enquanto isso, Chávez sempre desfrutou dessa maioria, com o PSUV (Partido Socialista Unificado da Venezuela) elegendo a maioria absoluta dos deputados federais, dos governadores de estado, dos prefeitos e ainda tendo maioria no Poder Judiciário e um sólido apoio das Forças Armadas. Chávez também chegou a receber autorização da Assembleia Nacional (o Parlamento venezuelano) para governar com base em leis habilitantes, ou seja, decretos. 

Foi graças a isso que Hugo Chávez pôde, por exemplo, reorganizar as Forças Armadas e nacionalizar o setor petrolífero. 

Aliás, Nicolás Maduro, o sucessor de Chávez, também faz uso de leis habilitantes para poder governar.

Lula e Dilma nunca desfrutaram de poder semelhante aqui no Brasil, tendo que negociar no Congresso Nacional (Bicameral) a aprovação de todos os projetos de leis e de medidas provisórias que desejam ver aprovados pelo Poder Legislativo. 

E o Syriza grego também chegou muito perto de obter a maioria absoluta na mais recente eleição grega, elegendo 149 de 300 deputados do Parlamento grego (49,7% do total). E bastou ao partido fazer um acordo com um partido de Direita nacionalista (os Gregos independentes), que elegeu 13 deputados, para que Alexis Tsipras desfrutasse de maioria absoluta no Parlamento grego.

Também é bom não esquecer que os Parlamentos grego e venezuelano são Unicamerais, ou seja, não tem Senado, uma instituição extremamente conservadora em praticamente todos os países nas quais ele existe e que, no Brasil, é muito poderosa. 

Já no Brasil, o máximo a que o PT chegou foi a 89 deputados federais, nessa legislatura que se encerra (2011-2014), elegendo apenas 17,3% do total dos deputados federais. E para a próxima legislatura (2015-2018) a situação do PT piorou muito, pois elegeu 70 deputados federais (apenas 13,6% do total). O PCdoB, aliado mais próximo e mais antigo do PT, também encolheu bastante na eleição de 2014, elegendo apenas 10 deputados federais, contra 15 que tinham sido eleitos em 2010.

Esse enfraquecimento do PT e do PCdoB tornou o governo Dilma ainda mais dependente de partidos e legendas conservadoras para poder governar. 

Nem Tsipras e nem Chávez jamais tiveram tamanha dependência de partidos conservadores para poder governar. 

E o PT nunca elegeu, também, a maioria dos governadores de estado e dos prefeitos e tampouco dos Senadores.

Além disso, o contexto histórico no qual Lula, Chávez e Tsipras ascenderam ao poder é totalmente distinto, não podendo ser objeto de qualquer tipo de comparação. 

Senão, vejamos:

A) Chávez se elegeu Presidente da República após vários anos seguidos de uma brutal crise econômica e social na Venezuela. Quando ele tomou posse, o sistema financeiro do país (público e privado) tinha falido, a taxa de desemprego superava os 25% e quase 61% dos venezuelanos viviam abaixo da linha de pobreza em 1997, ano anterior à sua vitória na eleição presidencial. 

Neste contexto, as elites dirigentes da Venezuela estavam completamente desmoralizadas (os partidos mais fortes eram a AD e o Copei, ambos de centro-direita), tanto que sequer conseguiram lançar um candidato presidencial viável para a eleição de 1998, que acabou vencida por Hugo Chávez. O Copei, conservador, lançou a candidatura de uma ex-Miss Universo, Irene Sáez, tal era o grau de desmoralização das lideranças políticas tradicionais da legenda. 

Então, Chávez assume o governo do país num momento de crise extremamente grave e com as lideranças políticas tradicionais da Venezuela estando totalmente desmoralizadas pela situação catastrófica em que deixaram o país e o povo venezuelano.

Em 1997, ano anterior à vitória de Chávez na eleição presidencial, quase 61% dos venezuelanos viviam na pobreza. E quase a metade destes vivia na pobreza extrema. 

B) Tsipras e o Syriza, e tal como aconteceu na Venezuela, conquistaram a sua vitória na Grécia também como consequência de um cenário econômico e social terrível, com o desemprego passando dos 25% (entre os jovens o mesmo chega perto dos 60%) e com metade do povo grego vivendo abaixo da linha da pobreza. 

Logo, e tal como aconteceu na Venezuela, as lideranças políticas conservadoras e tradicionais gregas também estavam totalmente desmoralizadas, tanto que elegeram menos de 30% dos parlamentares na eleição que ocorreu no início deste ano. ]

Enquanto isso, os partidos de oposição às políticas de austeridade (tanto os de esquerda, como os direita) elegeram mais de 70% dos parlamentares, sendo que o Syriza, sozinho, como já citei aqui, elegeu 149 dos 300, ou seja, 49,7% do total. 

C) Lula também tomou posse na Presidência da República em um momento de crise econômica e social, com a economia brasileira estagnada e o país sendo governado, na prática, pelo FMI. 

Mas o cenário brasileiro econômico e social brasileiro não era tão terrível como os da Venezuela e o da Grécia quando tivemos as vitórias de Chávez (1998) e de Tsipras (2015).

O desemprego, no Brasil, no final de 2002, era de 12,6% (metade da taxa grega e venezuelana quando Chávez e Tsipras tomaram posse) e o percentual da população que vivia abaixo da linha da pobreza em nosso país estava em torno de 34,4%, sendo também bem inferior aos da Venezuela (61%) e da Grécia (50%). 

Além disso, mesmo com a crise que o país enfrentava, as elites tradicionais brasileiras ainda estavam solidamente estabelecidas nas instituições do Estado brasileiro, dominando o Poder Legislativo nas três esferas (federal, estadual e municipal) e tendo uma influência imensa no Poder Judiciário e no Ministério Público. O julgamento da AP 470, que condenou alguns dos principais dirigentes do PT à prisão de forma abusiva e ilegal, é a maior comprovação desse fato. 

A imensa maioria dos governadores de estado (que tem uma grande influência no Congresso Nacional, com muitos deles controlando os votos dos deputados federais e senadores de seus respectivos estados) também pertencem a partidos conservadotres (PSDB, PMDB, PP, PTB, PSB, PSD, entre outros). 

Sem falar no poder imenso que a Grande Mídia brasileira ainda possui, influenciando a forma de pensar e os votos de dezenas de milhões de brasileiros. 

A taxa de desemprego na Grécia, em outubro de 2014, ainda estava em espantosos 25,8%, mesmo depois de quase 6 anos de políticas de austeridade que, segundo a Troika (BCE, FMI, Comissão Europeia) iriam colocar a Grécia no rumo do crescimento econômico e da geração de empregos, mas isso não aconteceu, o que acabou por levar Tsipras/Syriza ao governo do país. 

Tudo isso, é claro, sempre limitou os poderes de governar de Lula e de Dilma. Cobrar deles que governem ignorando a tudo isso é o mesmo que pedir que eles joguem os seus mandatos na lata de lixo. 

É mais do que evidente que caso Lula e Dilma desfrutassem do mesmo poder político que Chávez/Maduro e Tsipras/Syriza conquistaram em seus países, então eles poderiam tomar decisões muito mais ousadas nos aspectos político, econômico, social, entre muitos outros. 

Mas isso não acontece. 

Portanto, pode-se concluir, perfeitamente, que os presidentes Lula e Dilma nunca desfrutaram nem de uma fração sequer do poder político conquistados por Hugo Chávez/Nicolás Maduro na Venezuela e por Alexis Tsipras/Syriza na Grécia.

Assim, qualquer comparação entre as ações de governo de Lula e Dilma com as de Chávez-Maduro/Tsipras-Syriza que ignore todos estes fatores não passa de uma comparação patética, ridícula e sem nenhuma fundamentação na realidade concreta destes três países. 

Link:

Para a Grécia é melhor que Tsipras seja um novo Lula ou um novo Chávez?

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/para-a-grecia-e-melhor-que-tsipras-seja-um-novo-lula-ou-um-novo-chavez/

Ex-Miss Universo é a candidata do Copei para a eleição presidencial de 1998:


http://historico.notitarde.com/1998/05/15/pais/pais1.html


O governo Chávez e as leis habilitantes:


http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/11/1371796-saiba-mais-o-que-e-a-lei-habilitante-da-venezuela.shtml


Nicolás Maduro obtém autorização do Parlamento para governar com o uso de leis habilitantes:


http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2013-11-19/assembleia-da-venezuela-aprova-lei-que-da-poderes-para-que-maduro-governe-sob-emissao-de-decretos


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