sábado, 12 de setembro de 2015

Brasil: Porque as lutas políticas e sociais devem se tornar cada vez mais intensas nos próximos anos! - Marcos Doniseti!

Brasil: Porque as lutas políticas e sociais devem se tornar cada vez mais intensas nos próximos anos! - Marcos Doniseti!
O economista polonês Michal Kalecki antecipou várias das ideias e teorias keynesianas. E defendia que os capitalistas repudiam as políticas públicas de estímulo ao consumdo porque retira deles o controle das decisões que determinam o rumo da atividade econômica.

O site da 'Carta Maior' publicou um texto muito interessante, de autoria do economista Fernando Rugitsky, que mostra que a adoção de políticas de ajuste econômico por parte do governo Dilma, em seu segundo mandato, se deve a uma combinação de fatores políticos e econômicos, internos e externos, tais como:

1) Desaceleração da economia chinesa

Esta desaceleração derrubou os preços de alguns dos principais produtos de exportação do Brasil (commodities agrícolas e minerais, como a soja, o minério de ferro, etc).

Isso promoveu uma grande deterioração dos termos de troca para o Brasil, que passou a faturar muito menos com as exportações.

Tais fatores contribuíram para reduzir a demanda por produtos brasileiros, gerando uma redução do investimento produtivo no país;

É bom não esquecer, embora isso não seja dito no texto, que tal fato também afetou inúmeras outras economia da América Latina e, até mesmo, a Rússia (grande exportadora de petróleo e que enfrenta uma severa recessão em 2015 devido à forte queda do preço do barril). E a América Latina é o principal mercado de exportação de produtos industrializados brasileiros.

2) Greve de Investimentos por parte dos capitalistas brasileiros.

Os capitalistas brasileiros rejeitaram a adoção da política social-desenvolvimentista que foi implementada pelo governo Dilma em seu primeiro mandato (2011-2014).

Neste, tivemos a redução da taxa Selic para 7,25% ao ano, a redução das tarifas de energia elétrica (um setor que foi fortemente desnacionalizado no governo FHC, caindo sob o controle do capital estrangeiro), a expansão da atuação do BNDES, a redução da margem de lucro em obras de infra-estrutura (exemplo: os pedágios das rodovias federais que foram concedidas ao setor privados foram reduzidos), a diminuição dos juros da CEF e do BB (que tomaram mercado dos bancos privados).
Desde o final de 2008 que a taxa de juros do FED (Banco Central dos EUA) está próximo de 0% ao ano. Tal medida, junto com a política de estímulos monetários (quantitative easing) que injetou US$ 4 trilhões na economia mundial, contribuíram decisivamente para a recuperação da economia dos EUA.
A forte queda do desemprego, que fechou em apenas 4,8% em 2014 (a menor taxa da história) também prejudicou os interesses dos capitalistas, principalmente daqueles que possuem uma típica mentalidade escravocrata e que desejam sempre explorar uma força de trabalho barata e que trabalhe intensamente, feito burros de carga. Com o desemprego tão baixo, como o que tivemos em 2014, isso fica muito mais difícil. Não foi à toa, aliás, que nos últimos anos mais de 90% dos acordos salariais terminassem com os trabalhadores brasileiros obtendos aumentos reais anuais de salários.
Tudo isso contrariou interesses capitalistas poderosos que, em função disso, recusaram-se a investir no aumento da capacidade produtiva, contribuindo fortemente para a estagnação econômica que tivemos em 2014.
E isso também ajudou na piora da situação das contas externas, pois obrigou o país a aumentar as suas importações para suprir o aumento de demanda interna que tivemos entre 2003-2014, pois as vendas no comércio varejista brasileiro, neste período, cresceu cerca de 140%. 
Somente no primeiro mandato de Dilma as vendas de veículos no mercado interno brasileiro chegaram a quase 14 milhões de carros zero km, fazendo do país o quarto maior mercado de veículos do mundo, ficando atrás apenas da China, EUA e Japão. E como grande parte das peças e insumos usados na produção dos veículos são importados, isso pressionou as importações e as contas externas do país.
Reservas internacionais líquidas do Brasil cresceram fortemente entre 2002 (US$ 16,3 bilhões) e 2014 (US$ 379 bilhões). Atualmente elas estão em US$ 370 bilhões. 
Estagnação econômica brasileira em 2014
Sem os investimentos necessários, e com um cenário econômico mundial cada vez pior, principalmente devido à forte desaceleração da economia chinesa. Esta passou a crescer a um ritmo anual de apenas 7% - contra mais de 10% ao ano antes da crise global neoliberal que começou em 2008 - e atingiu em cheio as economias da América Latina, Brasil incluído. 
Com isso, a economia brasileira estagnou em 2014, quando o crescimento do PIB brasileiro foi de apenas 0,1%, caracterizando uma estagnação econômica. 
Desta maneira, a arrecadação de impostos diminuiu em 2015 e, desta maneira, a situação das contas públicas começou a se deteriorar. Em função disso, o governo Dilma adotou uma política de ajuste econômico, que é tão criticada, em seu segundo mandato, com o objetivo de reequilibrar as contas públicas e também das contas externas, cujos déficits foram muito elevados em 2014 (o déficit público nominal foi de 6,6% do PIB e o déficit nas contas externas foi de 4,2% do PIB).

Impeachment, Operação Lava Jato, Terrorismo Midiático e Quantitative Easing.
Estes assuntos não são analisados no texto publicado em 'Carta Maior', mas irei analisá-los aqui.
E para piorar um pouco mais a situação brasileira em 2015, ainda tivemos a operação 'Lava Jato', que em nome do combate à corrupção (de apenas de alguns segmentos da classe política brasileira... afinal, com o PSDB ninguém mexe, pois a turma do Grande Capital não permite) acabou por prejudicar o andamento e a execução de inúmeras grandes obras de infra-estrutura no país (refinarias, construção naval, etc), pois atingiu em cheio as maiores empreiteiras do país (Odebrecht, Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, OAS, etc).
Segundo estimativas, a operação 'Lava Jato' irá diminuir o valor do PIB brasileiro de 2015 em R$ 142,6 bilhões (o equivalente a 2,5% do PIB) e tirar o emprego de 1,9 milhão de trabalhadores brasileiros. Assim, praticamente toda a retração econômica que teremos no Brasil em 2015 será de responsabilidade exclusiva da 'Lava Jato', pois segundo o Boletim Focus divulgado em 08/09/2015 a queda do PIB brasileiro deverá ficar em 2,44% em 2015.
A taxa de desemprego nos EUA permaneceu num patamar bastante alto durante vários anos consecutivos após o início da crise global neoliberal de 2008. A queda começou, mesmo, somente a partir do final de 2011. E apenas em Janeiro de 2012 ela retornou ao mesmo nível no qual se encontrava em Fevereiro de 2009 (8,3%, bastante elevado). 
Portanto, a operação 'Lava Jato', fortemente marqueteira e seletiva nas suas investigações, afetou negativamente um setor muito importante da economia brasileira, a Construção Civil, que é um dos poucos setores da economia que é controlado pelo capital nacional e que não necessita importar insumos ou matérias-primas, pois são todos produzidos internamente.
O texto de Fernando Rugitsky no site da 'Carta Maior' também não trata disso, concentrando-se nos aspectos econômicos e financeiros da situação brasileira, mas é mais do que evidente de que o noticiário midiático de caráter manipulatório e mentiroso, convenceu uma grande parte da população brasileira de que 'o país está quebrado', o que é uma deslavada mentira.
Afinal, que raio de país quebrado é esse que possui Reservas Internacionais líquidas (de US$ 370 bilhões) suficientes para pagar toda a sua Dívida Externa Bruta (US$ 343 bilhões)?
Uma coisa é o país precisar ajustar a sua economia para superar dificuldades temporárias, como é o caso do Brasil atualmente. Outra coisa, bem diferente, é dizer que 'o país está quebrado'.
Além disso, em Outubro de 2014 o FED encerrou a política de 'quantitative easing' (estímulo monetário) que implementou em Novembro de 2008 e que injetou US$ 4 trilhões de dólares na economia mundial. Tal política foi acompanhada da redução da taxa de juros para apenas 0,25% ao ano e ambas as medidas contribuíram para a retomada do crescimentro econômico dos EUA que, atualmente, tem uma taxa de desemprego de 5,1% em Agosto, contra uma taxa de 10,2% em Outubro de 2009.
Com essa significativa queda da taxa de desemprego nos EUA, aumentou a expectativa de que o FED irá aumentar a sua taxa de juros. Somente isso já foi suficiente para fazer com que uma parte do capital fabricado pelo FED nos últimos anos (via quantitative easing) e que haviam sido aplicados em outros mercados mundo afora acabassem por retornar aos EUA, levando a uma forte desvalorização de moedas pelo mundo todo. Nos primeiros meses deste ano, 20 das 21 moedas mais importantes se desvalorizaram perante o dólar. E o Real foi uma destas moedas.
Tudo isso, somado à tentativa da oposição derrotada em 2014 na eleição presidencial de tentar levar adiante um processo de Impeachment contra Dilma, aumentando o grau de incerteza política e econômica do país, também contribuiu para a desaceleração econômica que o Brasil enfrenta em 2015 esteja sendo muito maior do que seria caso apenas a política de ajuste econômico estivesse vigorando e que visa restabelecer o equilíbrio das contas públicas e das contas externas.
Assim, a desaceleração da economia chinesa, a forte perda de valor das commodities, a forte crise que atingiu a América Latina, a greve dos investimentos por parte dos capitalistas tupiniquins, o terrorismo midiático mentiroso e manipulador, a operação Lava Jato, a expectativa de aumento da taxa de juros pelo FED e a tentativa de se aprovar o Impeachment de Dilma se combinaram para fazer de 2015 um ano muito pior para o país do que se poderia imaginar ao final do ano passado.
A taxa de desemprego no Brasil despencou entre 2002 (12,2%) e 2014, quando terminou o ano em 4,8%. Com isso, os trabalhadores passaram a conquistar aumentos salariais reais. Tal situação desagradou muito aos capitalistas, que não tinham mais como arrochar os salários para poder aumentar a sua margem de lucro.

Luta de Classes ficou mais forte e deve se intensificar ainda mais no Brasil nos próximos anos
Aliás, tal avaliação, de que a crise atual é muito mais política do que econômica, também foi corroborada até mesmo por grandes empresários brasileiros, como foi o caso de Roberto Setúbal (Itaú), Luiz Trabuco (Bradesco) e Abílio Diniz (Brazil Foods... leia-se Sadia e Perdigão). A questão é: os capitalistas estrangeiros e brasileiros continuarão promovendo essa verdadeira guerra política contra o governo Dilma, a fim de obrigá-lo a adotar as mesmas políticas que o povo brasileiro rejeitou nas eleições presidenciais de 2002, 2006, 2010 e 2014? Como o economista Fernando Rugitski diz na parte final do seu texto, a adoção de uma política permanente de 'austeridade' irá, inevitavelmente, aumentar a intensidade das lutas políticas e sociais no Brasil. Isso irá acontecer porque a população brasileira não aceita mais perder aquilo que conquistou nos últimos anos (pleno emprego, salários reais aumentando, acesso ao crédito, entrada no mercado consumidor, aquisição de casa própria, de veículos e demais bens de consumo duráveis, acesso aos serviços públicos de transporte, saúde, educação, etc), e deseja a continuidade das políticas de inclusão social e de distribuição de renda implementadas pelos governos Lula e Dilma. Mas isso acontece ao mesmo tempo em que os interesses do Grande Capital (principalmente do capital financeiro especulativo globalizado) fazem com que o mesmo rejeite as políticas sociais e desenvolvimentistas que permitiram que essas políticas de inclusão social e de distribuição de renda fossem adotadas. Qual será o resultado deste crescente processo de lutas políticas e sociais que se desenvolve no Brasil atualmente é algo que não tem como ser previsto, mas a tendência no sentido de que o mesmo irá se intensificar nos próximos anos é mais do que evidente. Como diria Karl Marx: 'É a luta de classes, estúpido!'.
A participação da Construção Civil na economia brasileira é imensa, chegando a 14,8% do PIB total do país.
Links: Do Ensaio Desenvolvimentista à austeridade: uma leitura Kaleckiana: http://cartamaior.com.br/?%2FEditoria%2FEconomia%2FDo-Ensaio-Desenvolvimentista-a-austeridade-uma-leitura-Kaleckiana%2F7%2F33448 Boletim Focus estima que PIB brasileiro cairá 2,44% em 2015: http://g1.globo.com/economia/mercados/noticia/2015/09/mercado-preve-mais-inflacao-e-menos-crescimento-para-2015-e-2016.html Empresários brasileiros criticam a ideia de Impeachment: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/08/24/politica/1440374136_727458.html Abílio Diniz - Crise é mais política do que econômica: http://www.brasil247.com/pt/247/economia/194279/Ab%C3%ADlio-Diniz-crise-%C3%A9-mais-pol%C3%ADtica-que-econ%C3%B4mica.htm PIB brasileiro cresceu apenas 0,1% em 2014: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/03/27/politica/1427458565_874347.html FED: Política de estímulos monetários injetou US$ 4 trilhões na economia mundial: http://oglobo.globo.com/economia/negocios/bc-dos-eua-marca-para-outubro-fim-do-programa-de-estimulos-13195893 Desemprego nos EUA chega a 10,2% em Outubro de 2009: http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,taxa-de-desemprego-nos-eua-supera-10-apos-26-anos,462235 Taxa de desemprego nos EUA cai para 5,1% em Agosto de 2015: http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/09/desemprego-cai-nos-eua-e-continua-no-nivel-mais-baixo-em-7-anos.html
Dólar se valoriza ante moedas do mundo todo em 2015: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/03/150312_cambio_real_euro_ru
Reservas internacionais líquidas do Brasil chegam a US$ 370,9 bilhões: https://www.bcb.gov.br/?RP20150910

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