sábado, 3 de outubro de 2015

Líder da Esquerda francesa, Jean-Luc Mélenchon analisa o cenário político de Portugal!

Líder da Esquerda francesa, Jean-Luc Mélenchon analisa o cenário político de Portugal!
Jean-Luc Mélenchon, líder do Parti de Gauche, que obteve 11,1% dos votos na eleição presidencial francesa de 2012. 
Texto de Jean-Luc Mélenchon sobre a eleição em Portugal (04/10/2015).

VOTAÇÃO EM PORTUGAL neste domingo

Este domingo, 4 de outubro seraõ realizadas as eleições parlamentares de Portugal.

Isso é importante porque esta eleição vai ser um episódio político que também está ligado ao Velho Mundo. O novo Parlamento será eleito pelos círculos regionais proporcionais.

O primeiro-ministro, atualmente, é Pedro Passos Coelho. Ele comanda um governo de direita desde 2011. O partido no poder é chamado de "social-democrata", mas tal denominação é uma mera relíquia do período após a queda da ditadura de Salazar, onde ninguém se atreveu dizer abertamente que era de Direita em Portugal.

A Direita é considerada favorita e o Partido Socialista Português está em segundo lugar, mas a diferença entre as duas forças políticas continua reduzida. 

Obviamente, o PS centrou sua campanha insistindo no chamado "voto útil".

Isso também soa oco por aqui. "Útil para o quê? ". Pois esse é o Partido Socialista que chamou a Troika e implementou as primeiras medidas de austeridade em 2010-2011. Desde então, a linha política do governo continua sendo a liberal. E o Partido Socialista não oferece nenhuma ruptura com esta política, é claro. O balanço da mesma é, no entanto, terrível.

A riqueza produzida (assumindo que é uma referência real para nós como é para os produtivistas) ainda é menor do que em 2009, após 3 anos de recessão entre 2011 e 2013. Há mais 300 mil desempregados e o desemprego entre jovens chega a 40%. 

Assim, 500.000 portugueses fugiram para o exílio em 5 anos. E da população que permaneceu no país 20% são de pobres.

Portugal é muitas vezes apresentado como sendo o "bom aluno da Troika", alegando que o país não está mais sujeito a "pacotes de resgate". Sabemos que um "plano de resgate" é uma privatização, um sangramento, que promove inúmeros cortes nos gastos públicos, feitos para o Governo poder emprestar "no mercado diretamente.". 

Os defensores da "única política possível" usam de muita retórica, a realidade é bem diferente.

A pequena recuperação da qual a economia portuguesa desfrutou não se deveu à asfixia das políticas impostas pela Troika, mas ao seu oposto. 

Taxa de desemprego em Portugal está em 12,4% (Agosto de 2015). Entre os jovens a taxa chega a 31,8%, o que levou muitos jovens portugueses a procurar trabalho em outros países. 
A "Recuperação" tímida que tivemos em 2014-15 coincidiu com a flexibilização do liberalismo ortodoxo, isto é, se ela ocorreu é porque tivemos uma atenuação da política de austeridade, promovida devido ao medo de quebrar a corda segurando o enforcado.

O FMI diz claramente: "O ajuste do Orçamento abrandou." E, ao mesmo tempo, este foi resultado de um declínio do Euro, promovido pelo BCE, que agiu contra o dogma do Euro forte. 

E é também devido à intervenção do BCE que ocorreu uma diminuição das taxas de juros nos mercados financeiros a partir do qual o governo de Portugal pode agora "comprar diretamente". Em suma, foi adotando medidas totalmente opostas às exigidas pelo catecismo ultraliberal que a situação econômica tornou-se um pouco menos cruel. 

Mas todo esse discurso em torno de uma suposta "recuperação portuguesa" não deve perder de vista que isso é muito pouco. Seguindo no ritmo atual, apenas em 2020 o PIB de Portugal voltará aos níveis de 2009! No longo prazo, a economia portuguesa é desfigurada pela receita que tem sido aplicada. O modelo alemão fez o seu trabalho.

Ele agora se baseia em exportações: elas representam 40% do PIB português contra 27% antes da crise. Em outras palavras, já na primeira inversão da tendência global, zás, Portugal voltará à Idade da Pedra. 

E ultimamente temos tido apenas más notícias, com a OMC (Organização Mundial do Comércio) anunciando que o comércio internacional vai diminuir, pelo quarto ano consecutivo.

O nível da atividade econômica portuguesa, portanto, está alinhado com a taxa de crescimento global. 

Mas podemos dizer adeus ao tempo divino quando o comércio mundial progrediu duas vezes mais rápido que a produção, porque o comércio de bens está definhando. 

Assim, a "recuperação econômica" é fundamentalmente insustentável. A exportação aumenta com base no dumping social, ou seja, devido ao menor custo do trabalho e à desvalorização do Euro, que são dois parâmetros que sempre passam por fortes flutuações sociais e políticas.

Dívida Pública de Portugal teve um crescimento expressivo após o estouro da crise neoliberal global de 2008. 
Em qualquer caso, não é claro que a manipulação de uma moeda e a regressão social irão melhorar o nível de qualidade ou o desempenho dos produtos comercializados. A produção portuguesa não é mais competitiva do que era no início da crise. Seu valor de uso é o mesmo e seu valor de troca é manipulado.

Enquanto isso, os salários diminuíram 6% entre 2010 e 2013 e, portanto, não é o consumo popular que vai compensar a lenta expansão da exportação. E em qualquer caso, a dívida pública permanece como insustentável, tal como ocorre com a Grécia e com os países de todo o arco do Mediterrâneo.

Segundo o FMI, "O peso da dívida pública e privada é capaz de reduzir as perspectivas de crescimento a médio prazo.". Isto é dito claramente.

Porque, como é tradicional, a dívida pública aumentou com as políticas de austeridade e as outras maravilhas do tratamento aplicado para reduzí-la. Ela aumentou de 84% do PIB português em 2009 para 130% em 2014. E este é um "detalhe" que os comentaristas entusiastas do "bom aluno português" deixam de mencionar. Em qualquer caso, em 2015, o pagamento da dívida absorveu quase 5% da produção total do país.

E os bancos adoram isso! Especialmente porque eles não estão muito bem. A bolha de dívida privada representa claramente uma ameaça aos bancos portugueses. Os números devem deixar os mercados com muito medo, os mesmos "mercados" que são tão exigentes quando se trata de dívidas do Estado. A dívida privada tem diminuído um pouco, mas ainda representa 237% do PIB! 

Quanto aos bancos privados portugueses, a sua situação cheira mal mesmo a milhares de quilômetros de distância.

Em 2014 o Estado Português já salvou o Banco Espirito Santo, oferecendo-lhe um resgate de 5 bilhões de euros. E, neste momento, a inadimplência dos bancos portugueses ainda está muito alta, em 12% do total, sendo que os bancos marcam os mesmos em seus balanços como sendo ativos.

De acordo com o FMI, essa situação está piorando, ameaçando o sistema financeiro português, enquanto a imensa dívida pública torna impossível viabilizar uma injeção maciça de capital público. 

Apenas no final, é claro, isso será feito, tal como aconteceu na Grécia e em outros lugares. As dívidas privadas dos portugueses não serão pagas e os seus bancos entrarão em colapso em questão de tempo.

E nós? Onde estamos nesta eleição? O espaço cultural da esquerda em Portugal é ocupado por mais dois blocos.

O primeiro é constituído pela aliança dos Verdes e do Partido Comunista, o segundo é uma coalizão mais eclética, mas perene, que é o "Bloco de Esquerda". As suas intenções de voto, somadas, estão em torno de 15% do total. 

Mas, é claro, estamos divididos. 
Catarina Martins, líder do Bloco de Esquerda, que está com 9% das intenções de voto. Somando com as intenções de voto do PS (Partido Socialista) e da CDU (PCP-Verdes) isso dará maioria absoluta aos partidos de Centro-Esquerda e de Esquerda no Parlamento. 
Sob estas condições nós não somos percebidos como uma alternativa real e, portanto, não somos uma alternativa viável. Nós conseguimos catalisar um sentimento de grande insatisfação por parte da sociedade. Mas esta divisão permite que o Partido Socialista aproveite esta situação para defender a tese do voto útil, visto que não somos (obs: as Esquerdas) capazes de criar uma maioria governista.

Mas o descrédito do Partido Socialista é suficiente, ao que parece, para fazer com que esta chantagem leve muitas pessoas a não acreditar nele.

Eu sou o mais próximo que eu posso dos meus camaradas portugueses. No Parlamento Europeu eu adoto a mesma linha que os comunistas portugueses e eu não escondo que estamos a votar, muitas vezes, da mesma maneira, exceto em questões de pesca.

E o diálogo é sempre bom com o 'Bloco de Esquerda', cujos eleitos tornaram-se amigos pessoais com quem eu falo francamente e de forma relaxada. Na Europa, os pontos de vista são semelhantes após o episódio grego. Certamente, o PCP, aliado com os Verdes na "Coligação Democrática Unitária" (CDU) tem uma linha muito dura contra a União Europeia. E, além disso, o PCP não é um membro do Partido da Esquerda Europeia. E agora, o Bloco de Esquerda reviu a sua posição sobre o Euro após a assinatura do acordo por Tsipras.

O Bloco não critica Tsipras, mas adota uma posição quase idêntica à do Partido da Esquerda (Obs: Parti de Gauche, da França, liderado por Mélenchon).

Fernando Rosas, co-fundador do Bloco de Esquerda disse: "Em primeiro lugar, não pode se pode adotar uma a política anti-austeridade, enquanto se faz parte da Zona do Euro. Em segundo lugar, a Zona do Euro é uma espécie de ditadura que não permite as escolhas democráticas dos países europeus. Por isso, queremos renegociar a dívida e, se necessário, estamos preparados para deixar o Euro. Não vamos cometer o erro de Alexis Tsipras, que foi para as negociações sem um Plano B. Mas sem fazer negociações não vamos criticar publicamente o Syriza. Nossa posição oficial é que temos de estar prontos para deixar o Euro, se as negociações da dívida são mal sucedidas. "

Aqui tudo isso é tratado como sendo "populista". Há dois anos, o PCP assinalou em cartazes de 4X8 metros: "Basta de ladrões e mentirosos - Renúncia do governo"! 

E no início deste ano, o Bloco de Esquerda acusou o primeiro-ministro português de ser "mais alemão do que Angela Merkel" em sua obsessão com o déficit orçamentário.

JLM
Bandeiras da coligação CDU (Comunistas e Ecologistas), que defende a saída de Portugal da Zona do Euro.

Links:

Texto de Jean-Luc Mélenchon:

https://www.facebook.com/JLMelenchon/posts/10153683328378750

Portugal: A Revolta Silenciosa e Individualista:

http://pt.euronews.com/2015/10/02/portugal-a-revolta-silenciosa/

Crise levou à saída de 485 mil portugueses:

http://www.cmjornal.xl.pt/nacional/sociedade/detalhe/portugal_lidera_emigracao.html

Taxa de desemprego em Portugal subiu para 12,4% em Agosto:

http://www.rtp.pt/noticias/economia/taxa-de-desemprego-em-portugal-subiu-para-124-em-agosto_v862603

CDU: Portugal tem que sair da Zona do Euro:

http://www.dn.pt/politica/interior.aspx?content_id=4793066

Nível de pobreza em Portugal chega a 20% e recua uma década na área social:

http://www.publico.pt/sociedade/noticia/portugal-voltou-aos-niveis-de-pobreza-de-ha-dez-anos-1684583

Obs: A tradução do texto foi feita por mim, com a ajuda do 'Google Tradutor'. Depois, fiz alguns ajustes para tornar o texto mais compreensível ao leitor. Se alguém identificar algum erro e quiser ajudar a corrigir o mesmo, fique à vontade. Deixei de traduzir um pequeno paragráfo do final do texto devido ao fato de que a tradução ficou incompreensível para mim. 

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