quarta-feira, 29 de junho de 2016

Europa, América Latina e os Nacionalismos! – Marcos Doniseti!

Europa, América Latina e os Nacionalismos! – Marcos Doniseti!
Getúlio Vargas criou a Petrobras e o monopólio estatal do petróleo, bem como a CLT, o BNDES e a Vale do Rio Doce. A atuação do Estado foi fundamental para se promover o desenvolvimento econômico e social brasileiro nas décadas seguintes.  
Considerei muito interessante e pertinente a reflexão do Rodrigo Vianna sobre a saída do Reino Unido da UE, bem como sobre a questão do Nacionalismo, que ele publicou em seu blog.

Ele chama a atenção para algo importante em seu texto, de que o Nacionalismo na Europa sempre teve um caráter fortemente conservador, xenófobo, racista e imperialista.

Fascismo, Nazismo, Salazarismo, Franquismo, foram todos movimentos políticos de Direita Nacionalista. 

Mas no caso da América Latina, historicamente subjugada pelos Impérios Capitalistas (da própria Europa, inclusive) o Nacionalismo teve (e ainda tem) um perfil mais progressista e próximo das reivindicações das classes trabalhadoras, das camadas populares.

Assim, foram governos nacionalistas que, na América Latina, implantaram uma legislação social, trabalhista e previdenciária (CLT no Brasil, por exemplo), que nacionalizaram os recursos naturais (petróleo, cobre, etc), que criaram empresas estatais que investiram fortemente em infra-estrutura e no desenvolvimento científico, tecnológico e industrial destes países.

No Brasil, por exemplo, onde essa política teve maior alcance e foi mais bem sucedida, tivemos a criação da Petrobras, da Vale do Rio Doce, do BNDES, da Telebras, da Eletrobras, da Embraer, das siderúrgicas estatais (CSN/Cosipa/Usiminas/CST), das petroquímicas, todas frutos dos investimentos feitos pelo Estado, sem os quais o processo de modernização e de desenvolvimento do país não teria sido levado adiante.

Aqui, na América Latina, o chamado Liberalismo sempre foi golpista, excludente, elitista, reacionário e entreguista, sendo um notório defensor de um Estado Mínimo quando se trata de defender os trabalhadores, e de um Estado Máximo quando se trata de beneficiar o Grande Capital privado, nacional e estrangeiro.

Também não de pode esquecer que os liberais latino-americanos sempre gostaram de promover Golpes de Estado às pencas, bem como de apoiar inúmeras Ditaduras, principalmente as Militares. E isso continua a acontecer, mesmo no século XXI (vide os Golpes de Estado em Honduras, Paraguai, Venezuela, Bolívia, Equador e, agora, no Brasil). 
O nazismo foi um movimento nacionalista, extremista, imperialista, militarista e racista, que visava escravizar exterminar os povos e 'raças' que considerava como sendo inferiores. 
Portanto, o Liberalismo latino-americano, diferente do Europeu, nunca esteve ligado à ampliação dos direitos políticos e sociais da maioria da população, muito pelo contrário. 

Na Europa, esse foi o principal efeito das chamadas Revoluções Burguesas (Liberais) que explodiram no Velho Mundo a partir da Revolução Francesa (1789-1799). No século XIX, elas aconteceram, praticamente, em todo o continente europeu (Espanha, Portugal, França, Alemanha, Itália...).

Uma das consequências da Revolução Francesa (Liberal) de 1830, por exemplo, foi a adoção do voto universal masculino.

Enquanto isso, na América Latina, as eleições (durante todo o século XIX) contavam apenas com a participação dos mais ricos (era o voto censitário). No Brasil, por exemplo, o voto censitário deixou de existir apenas com a Proclamação da República (1889).

Porém, a partir da segunda metade do século XIX, em especial, o Nacionalismo europeu também adquiriu características fortemente negativas, em função da própria realidade europeia, promovendo ideias xenófobas, racistas, militaristas e também, em vários casos, imperialistas (o que resultou na criação do Fascismo e do Nazismo).

Na Europa dos séculos XIX/XX existiam várias Nações ou Impérios multinacionais (o Russo, o Austro-Húngaro e o Turco-Otomano - parte europeu e parte asiático - eram os principais), nas quais conviviam povos das mais variadas nacionalidades, cada um com suas línguas, culturas, costumes e tradições.

Assim, o único jeito de uma nacionalidade se afirmar era atacando, expulsando ou eliminando aquelas que estavam presentes em ‘seu’ território.

Com isso, o nacionalismo europeu tornou-se reacionário.

E em vez de termos inúmeros povos convivendo pacificamente dentro de um mesmo Estado Nacional, ocorreu exatamente o contrário.


Stalingrado em 1943? Berlim em 1945? Não. Sarajevo (Bósnia) em 1995. 
Obs: Aliás, essa coexistência pacífica entre inúmeros povos, e sob um mesmo governo, é o principal objetivo do processo de integração europeu que começou no Pós-Guerra e que resultou na União Europeia. Sua finalidade é construir uma união política que englobe toda a Europa.  

Isso ajuda a explicar, por exemplo, o genocídio dos turcos contra os armênios entre 1915-1923, que ocorreu numa época em que os turcos otomanos estavam querendo fortalecer o seu Império, que sofria um processo de decadência que já durava várias décadas, e no qual viviam inúmeros povos: turcos, gregos, armênios, judeus, curdos.

Também tivemos inúmeros conflitos entre sérvios e croatas, romenos e húngaros, entre muitos outros que estouraram na Europa desde então.

A ‘Guerra da Iugoslávia’ (1991-1995) foi resultado, em grande parte, dos vários Nacionalismos que existiam no país.

Ela foi a mais brutal e sangrenta guerra que ocorreu na Europa depois da Segunda Guerra Mundial e foi insuflada pelos vários movimentos nacionalistas que existiam neste país de caráter multinacional, multiétnico e multi-religioso, no qual conviviam sérvios, croatas, eslovenos, bósnios, macedônios, bem como católicos romanos, cristãos ortodoxos e muçulmanos.

Mesmo o liberal Reino Unido, foi sacudido, no século XX, por conflitos envolvendo ingleses e irlandeses. Estes promoveram uma guerra de independência, que resultou na separação da maior parte da ilha da Irlanda, que deu origem à República do Eire, de maioria católica, enquanto que a parte norte da ilha (Ulster), de maioria protestante, originou a Irlanda do Norte.
Cerca de 1,5 milhão de armênios foram mortos pelos turcos entre 1915-1923. O Genocídio Armênio foi um dos mais brutais crimes da história.
Portanto, temos que diferenciar o Nacionalismo europeu (liberal no princípio, mas reacionário – racista, xenófobo, militarista e imperialista - mais adiante) do Nacionalismo latino-americano (que visava promover o desenvolvimento econômico nacional soberano – com o Estado controlando as riquezas nacionais - e a expansão dos direitos sociais e políticos das camadas populares).

Eles são expressões distintas, que se referem a fenômenos políticos e sociais, bem como a momentos históricos, radicalmente diferentes.

Link:

Rodrigo Vianna - O Nacionalismo e as Esquerdas:


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